QUARENTA E DOIS – CONTOS CRÔNICOS #2

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Ouço tiros, muitos tiros. Na verdade, até a voz dentro da minha cabeça tem um tom baixo. Meu pensamento precisa gritar comigo para poder ser ouvido, pois ele é abafado pelos sons dos tiros.

É assim na guerra, ninguém sabe muito bem de onde vem os sons, pra ondes eles vão. É uma mistura grande demais. Lembra as praças de alimentação dos shoppings, onde todos falam e não se escutam, todos comem e não se saciam, todos marcam e não se encontram. Tentei ouvir outras coisas, talvez o canto dos pássaros que voam assustados, ou as botas no barro fazendo levantar lama para todos os lados, até o fungar dos soldados que viam seus amigos despencarem sem vida. Mas o que eu mais escutava era o barulho das granadas atiradas aleatoriamente.

Você sabe o que uma granada e um raio tem em comum? Ambos nunca caem duas vezes no mesmo lugar. Por isso que torcia para que caíssem um pouco perto… as granadas, é lógico. Nunca torci para um raio, eles me davam medo na infância. Sempre quando elas caiam, um grande buraco era aberto, e os soldados covardes aproveitavam aquele lugar como um esconderijo, querendo se livrar um pouco da guerra. Era exatamente onde eu estava, mas, acredite, eu não sou um covarde! Quer dizer, noventa por cento da frase “eu não sou um covarde” é na verdade “eu sou um covarde”. Se eu realmente não fosse, diria “eu sou um soldado destemido”, afirmaria uma qualidade, ao invés de negar um defeito. É… talvez eu seja um covarde. Mas, acredite, eu não sou um covarde.

Olhava para meu amigo e o via se levantar, atirar e voltar para se proteger da saraivada de tiros que passavam em cima de nossas cabeças. Aquele cenário destruído, os corpos espalhados e o barulho bélico me fez repensar tudo. Principalmente no fato de estarmos aqui, armados, utilizando objetos que só tem uma função: fabricar defuntos. Henrique era um bravo guerreiro. Mesmo protegido pela trincheira feita pela granada, ele preferia ir à luta. Não demonstrava medo de morrer, empunhava sua arma com bravura, parecendo ser uma parte do seu corpo. Acho que ele até gostava da ideia de morrer defendendo sua pátria. Não que morrer fosse bom, mas é tipo a gripe que a gente pega quando toma banho de chuva. É a consequência ruim que vem depois de algo prazeroso… Sim, soa estranho, mas existem pessoas que veem prazer na guerra. Eu não sou uma delas. Por conta disso, estou aqui em posição fetal, ouvindo todos esses tiros.

– Henrique, Henrique. – Chamei quando vi que ele desceu para recarregar a arma.

– O que foi, Chaveirinho? – Eu odiava quando eles me chamavam assim, e foi exatamente por isso que o apelido pegou.

– Vem cá. – fui agachado até ele – Por que você está atirando neles? – a pergunta parecia um tanto quanto idiota, principalmente direcionada para um soldado com sede de vitória.

– Por que o quê? – Não sei se ele realmente não entendeu meu questionamento ou se achou que indagar aquilo, nessa altura do campeonato, era algo completamente absurdo.

– Por que você tá atirando neles, ora, por que você quer matar eles?

– Por que eles querem nos matar, seu idiota.

– E se você parar de atirar, será que eles param também?

– Hã? – ele parou de recarregar sua arma para me ouvir. Não que estivesse achando interessante. Na verdade, pela sua cara, eu estava fazendo um completo papel de panaca.

– Se você está atirando neles porque eles estão atirando na gente, é só você parar e eles também vão parar, essa é a sua lógica.

– Minha lógica?

– Sim, pare de recarregar a arma – ele já havia parado. – e espere um tempo pra ver se os tiros cessarão.

– Mas outros de nós continuarão atirando, não adianta.

– Faça a sua parte e espere que isso seja um exemplo.

– Fazer… parte… exemplo… você voltou a usar drogas, Chaveirinho? – ele colocou um pente cheio, engatilhou e se levantou para distribuir tiros aleatórios em direção ao inimigo.

– PARA! PARA! – gritei em vão. Uma rajada foi arremessada me fazendo pular no chão com as mãos apertando os ouvidos.

– Cadê a sua arma? – Henrique virou-se pra mim – Sozinho eu não ganharei.

– E quando você ganhará?

– Por que você não para de me fazer essas perguntas idiotas e levanta daí.

– Eu até posso ajudar – apoiei minha arma no chão e me levantei até onde era seguro -, mas só se você me disser quantos precisa matar para se sentir o vencedor.

Henrique coçou a barba com a mão desarmada, olhou para o lado esquerdo do seu cérebro procurando algum número que pudesse satisfazer, cuspiu no chão e respondeu:

– Quarenta e dois, quando eu matar quarenta e dois eu me sentirei vencedor.

– Mas por que quarenta e… – nesse momento, minha fala foi interrompida por uma granada que caiu próximo ao buraco onde nos refugiávamos. Meu reflexo me fez abaixar no mesmo instante, mas Henrique não teve a mesma sorte, parte da explosão o atingiu. Abri os olhos e vi que setenta por cento de Henrique estava bem na minha frente, os outros trinta estavam espalhados por todo o campo. Pelo visto, nosso corpo não entende muito de matemática, pois ainda havia quantidade de membros o suficiente para ele poder lutar. Mas não podia. Nem lutar, nem respirar, nem ser o bravo Henrique que conheci.

Assustado e paralisado, ali estava eu, refém do meu medo e com várias perguntas e nenhuma resposta: Por que atiramos em pessoas sem saber o motivo? Por que somos alvos de inimigos que nem precisariam ser inimigos? Por que eu sou um covarde? Por que eu nunca mais tomei banho de chuva? E o pior… quarenta e dois… por que quarenta e dois?

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