TEP – CONTOS CRÔNICOS #4

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“…Come gather ‘round people, Wherever you roam…” Meu despertador toca indicando que é a hora de levantar. Olho as horas e concordo com ele, apesar de estar completamente contrariado em dar-lhe razão. Deito apoiando a sola dos pés no colchão, é a forma que encontro para não correr o risco de cair no sono novamente e perder a hora. “Perder a hora, até parece que ela é minha.” Sento na cama e penso nesse último pensamento. Sinto-me dono das minhas escolhas sempre que vejo que tudo saiu exatamente como planejado, isso é bom? Pego uma camisa dentro do guarda-roupa, já são 6:00 e se não me apressar não tomarei um bom banho ou prepararei um bom café. Mas o que é bom mesmo? Para um mendigo, um bom banho seria apenas um banho. Para um crítico gastrólogo, um bom café teria componentes muito além de seu simples gosto. Pego uma camisa escrita TEP, é uma daquelas que se compra numa loja qualquer, sem se preocupar com o que está estampado. Ganhei de aniversário no começo do ano e não me importei em perguntar ou pesquisar o significado. Foi um presente da minha tia, ela tinha tempo para escolhê-la, imagino que havia milhões de possibilidades, mas ela quis exatamente essa… por quê?

Já são 6:45, estou pronto para ir trabalhar. Sou professor de alunos que já estão cansados da rotina. Ainda me encontro em casa, em frente a minha porta, chave na mão, mochila nas costas e na cabeça uma questão; se hoje eu não for trabalhar? Quantas possibilidades podem nascer a partir dessa escolha? Digamos que realmente não vá, um novo futuro, um novo percurso se abre, sem que o antigo seja sumariamente apresentado. Possa ser que a diretora fique brava com a minha falta e não acredite na desculpa que eu der. Ou ela pode acreditar, é que sou ruim mentindo, mas nesse dia ela pode estar fragilizada por ter descoberto que seu marido a traia e uma gravidez inesperada nasceu desse adultério. Caso não acredite, uma reação impensada pode fazer com ela tome a escolha errada (o que é o errado?) e me demita, sem sequer mensurar pontos positivos e negativos de ter uma profissional como eu. Todas as minhas visões do futuro seriam alteradas a partir disso, pois vivemos um mundo onde o dinheiro dita a capacidade de se sentir bem sucedido e de bem com a vida. Em frente a porta, nesse exato momento, eu me sinto os dois. Alguns alunos chorariam pela minha ausência, outros celebrariam, mas Ana, Ana não saberia o que fazer, como administrar tanta tristeza em um pequeno coração adolescente. Ela, por conta do ocorrido, perderia seu total foco no vestibular, o que atrasaria um ano da sua vida ou a faria mudar de opção profissional, pois a distância da rotina escolar atrapalharia o ritmo de estudos, ficando difícil disputar com jovens que não fazem nada, a não ser estudar. A coitada terá que trabalhar pra pagar um cursinho, e lá acabará se apaixonando por uma menina descolada e despreocupada com a vida. Era o que Ana sempre quis ser, mas depois da separação dos seus pais (e se eles continuassem juntos?), se focou tanto nos estudos que esqueceu de ser ela mesmo.

A verdade é que não existe verdade, existem verdades, todas as possibilidades são verdadeiras enquanto não houver um fato que sirva para desmenti-las. Não faz sentido descartar algo por acharmos que sabemos mais do futuro do que o futuro sabe da gente. Acreditem, ações falam mais que palavras, e o tempo, as escolhas, as possibilidades, são as certezas mais incertas que podemos saborear.

– Bom dia, turma, tudo bem com vocês?

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