POR QUE EXISTE O DIA INTERNACIONAL DAS MULHERES? – CONTOS CRÔNICOS #5

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Uma vendedora de geladinho entrou numa lanchonete famosa por só colocar três rodelas de picles e ofereceu seus produtos aos funcionários que ali estavam descansando o horário de almoço. Só havia um cliente, um jovem com caderno aberto e fone de ouvido. Ele parecia escrever algo interessante, pois só parava o contato da caneta com a folha quando bebia um gole de água da sua garrafinha de estampa estranha. A moça fez uma pergunta que pode ser ouvida apesar do som alto do baixo da Melissa Auf Der Maur em seus ouvidos. Ela havia perguntado se o vendedor que estava comprando o geladinho conhecia alguém que desse aulas de redação. Ele disse que não sabia, mas o jovem escritor, já sem os fones, levantou a mão “ei, eu sou professor de redação”, até se arrependeu do ímpeto da sua fala, pois pareceu que estava prestando atenção numa conversa que não era sua. A moça fechou a venda, o rapaz queria um geladinho de morango, e após colocar o dinheiro no bolso sentou-se a mesa para desfrutar da coincidência que o destino a reservou.

Ela falou sobre o sonho que tinha de fazer enfermagem, que tinha curso técnico, mas que não havia conseguido emprego após a conclusão. O rapaz se animou, era professor de uma escola e de uma ONG e precisava de uma renda extra, pois iria reformar a casa. No entanto, algo em sua fala o fez se preocupar em algo muito distante das latas de tinta e pisos simulando chão de taco. A vendedora adorou o preço, o jeito do rapaz, a calma em sua fala, mas pediu que ele fosse em sua casa para que o marido pudesse autorizar as aulas. O jovem sugeriu então que as aulas pudessem ser lá, mas ela disse que os únicos homens que podiam passar pela porta era o marido, o filho do marido e os amigos do marido, qualquer outro, sem autorização, era proibido. Uma sugestão simples foi dada, que eles tivessem as aulas em locais públicos. Ela adorou, mas ainda assim ia precisar que o marido autorizasse, em suas palavras sempre havia um “sabe como é, ele ia achar estranho”. O professor percebeu, pelo pessimismo na fala dela, que o pagamento da sua obra não sairia dali, e isso pouco importava, difícil mesmo era ver uma mulher ter um sonho interrompido pela falta de autorização do marido… quer dizer, ver uma mulher precisando da autorização do marido já era algo suficientemente ofensivo. Ele tentou argumentar, mas não adiantou, cada vez que ela falava do tal “carimbador maluco” ela sorria e depois olhava perdida para o lado esquerdo do cérebro, como se procurasse algo que deveria estar lá, talvez fosse a alegria de sonhar. Mas como sonhar se o marido não autorizou? Aquilo parecia transgressão demais.

Ela foi embora com o número dele no bolso, um olhar triste e a esperança como alicerce da vida. Ele voltou a escrever pensando em como uma caixa de piso era cara. O vendedor se aproximou do rapaz e o perguntou se havia fechado negócios com a mulher. O rapaz sorriu sem mostrar os dentes e perguntou quanto custava o sanduíche e se ele poderia por mais rodelas de picles.

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