A VELOCIDADE DOS BALÕES – CONTOS CRÔNICOS #9

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Parecia um corredor, mas há quem diga que não era, ninguém corre segurando balões coloridos. Era assim que ele passava por carros, motos, ônibus, em uma velocidade que não era da luz e nem do som, era dele mesmo. A pele negra no macacão suado ficava ainda mais negra e o suor podia ser visto em gotas se dissipando no ar. Eram quatro balões; verde, vermelho, laranja e rosa. Suas passadas longas eram formadas pelo balé das pernas finas e mágicas. Não era fácil correr desviando de tantos obstáculos, mas é o que ele fazia de melhor. Aprendeu quando era pequena e já se acostumara com o vento reverenciando a sua corrida. Alguns curiosos de bom coração paravam para incentivá-lo, outros, fãs de Drummond, queriam ser a pedra no caminho. Assim foi a menina de tranças, que jogou uma pedra no balão rosa, fazendo um estouro gigante adentrar a corrida do homem. Ele abaixou o pescoço como se desconfiasse de um tiro, aquilo o fez reduzir um pouco, mas só um pouco, ainda havia três balões e um enorme caminho pela frente.

Um caminhão bloqueava a sua frente, seria necessário escalá-lo e correr em cima da caçamba para continuar sua peregrinação. Ele tentou fazer tudo ao mesmo tempo; pegar os barbantes, enrolar os balões no braço, escalar o caminhão e continuar a corrida. Infelizmente, um deles não ficou bem amarrado e o céu foi agraciado pela cor verde invadindo-o. Era quase certo que alguma TV local noticiasse uma invasão alienígena. De cima daquela enorme máquina, o homem foi presenteado por algo que já nem se lembrava; uma visão diferente do mundo. Passou tanto tempo em velocidade que nem sequer tinha noção de que o céu poderia ficar mais perto. Esse vislumbre durou poucos minutos, ele correu e pulou do caminho, mas o impacto fez com que o balão laranja estoura-se, sobrando somente o vermelho.

Corria, corria, corria…precisava chegar ainda com o sol fazendo companhia. Algumas nuvens de chuva pareciam pedir licença, mas o sol não deixava, era um amigo, confiava em sua velocidade. O balão resistia a pressão do vento e o homem, cansado, não mostrava cansaço. À sua frente, havia um enorme túnel, aquela imensidão artificialmente noturna o fez parar. Ele analisou a fundo e era uma escuridão que parecia não ter fim. Encarou, já tinha corrido tanto, que não era um penumbre que o faria parar. Agarrou o balão com firmeza e foi. É, achou, inicialmente, que o túnel não tinha fim… ele estava certo.

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