ASSASSINO É QUEM MATA, NÉ? – CONTOS CRÔNICOS #10

warholchair
Little Electric Chair (1964) by Andy Warhol

No corredor da morte, aquele jovem negro andava sobre os olhares de todos que sustentavam as suas famílias com a dor dos que estiveram perdidos. Toda aquele aparato em suas mãos, pernas, cabeças contradiziam a ideia da morte digna, indolor. Para ele, a dor de saber que iria morrer era muito maior do que qualquer dor física. Eram dias sem dormir pensando em como sua mãe iria sobreviver sabendo que perdeu nove meses da vida para gerar sofrimento. Todo o texto habitual foi lido, o rapaz loiro que o lia com velocidade parecia já ter decorado cada palavra, o livro em suas mãos era mera formalidade.

– Você não quis antecipar seu último pedido, pode fazê-lo agora, se quiser. – O homem se direcionou a chave de eletricidade, era só puxar aquilo pra cima e todos vinte dois anos dele iriam virar cinzas.

– Eu não tenho um pedido, mas tenho uma pergunta, pode ser? – Aquilo era incomum. A menos que ele quisesse protelar a morte, fazer uma pergunta agora era tão inútil quanto um pente no bolso de um careca. Os guardas se olharam e uma voz do alto respondeu:

– Sim, pode fazer. – Era o coordenador. De dentro da sua cabine ele assistia tudo, só para ter certeza que nada daria errado (irônico, não?).

– Mas eu também preciso ter direito a resposta.

– Você quer perguntar e quer responder? Isso não faz sentido.

– Não, não. – Ele olhou pro guarda mais próximo e apontou com o nariz a sua mão, parecia estar muito apertada. O guarda nada fez. – Eu preciso da confirmação de que vocês irão responder, não vale dizer que não sabem, levantar aquela chave e fim. – Negociar algo do tipo com aquele homem não era agradável para um bando de pessoas que se achavm figuras sólidas da lei.

– Pergunte logo antes que minha paciência termine.

O jovem negro respirou fundo, tentou olhar para o autofalante, acima da cabeça de todos, e perguntou:

– Após vocês me matarem, quem matarão vocês? – Os guardas se olharam novamente, alguns exibiam um sorriso malicioso, outros sequer tinham entendido a pergunta.

– Isso é uma ameaça, seu imbecil? – O mais furioso se aproximou.

– Não, não, não me entendam mal, só quero que percebam que eu fui condenado a pena de morte por ter assassinado um rapaz, vocês irão fazer o mesmo, por que não há pena de morte para vocês?

– Por que estamos cumprindo ordens. – Outro policial respondeu.

– E eu estava defendendo um inocente. – Eles até podiam retrucar o argumento, mas nenhum sabia o motivo daquele jovem estar sentado ali. Não importava, era só mais um que iria sentar com o próprio esforço e levantar com o auxílio de alguém.

– Sempre existiu pena de morte, não adianta reclamar.

– Sempre existiu gripe, fome, doenças, e todos reclamam quando dão um espirro ou quando a barriga dói e não há nada na geladeira, o tempo não valida todas as ações. – O silêncio falou bem alto. Ninguém sabia o que fazer e voz de comando havia se calado.

– Já que seu chefe abandonou vocês, algum poderia responder a seguinte questão?. – Mais um pedaço de silêncio. – Numa comunidade há dez pessoas de bem e dez assassinos, as pessoas de bem, com medo da má reputação que os outros poderiam atrair, resolveram matar os dez assassinos. Quais pessoas sobraram?

– Sobraram dez “cidadões” de bem que fizeram o que tinha que ser feito.

– Primeiro  – O jovem deixou escapar um riso maroto. – São cidadãos, segundo, sobraram dez assassinos, ou não? Eu lembro de ver no dicionário, assassino é quem mata, né? Não é exatamente o que vocês estão fazendo comigo? – A porta se rompeu com violência. De dentro dela saiu o coordenador espumando raiva. Seu terno, amassado, estava abotoado de forma incorreta e a gravata não parecia ter sido escolhida de forma meticulosa.

– O que você quer? Morrer colocando alguma culpa na gente? Isso não vai funcionar.

– Nem eu acho que funcionaria, só preciso de respostas para descansar em paz.

– Acabou a palhaçada. – Ele ficou cara a cara com o condenado. – Nós não somos assassinos que nem você, nós não somos…

– Desculpa te interromper, senhor, você disse que não é assassino que nem eu, mas não disse que não é assassino. – O coordenador parou, a raiva transformou-se em reflexão. Revisitou as palavras na mente e percebeu o ato falho da sua frase.

– Liguem a chave, esse homem já tem a resposta que queria. – Ele ajeitou o termo, a gravata e saiu da sala. Os guardas não paravam de trocar olhares. Um deles seguiu até a chave e olhou profundamente para os olhos do jovem. As lágrimas encontravam os dentes amostra por causa de um sorriso irônico de confirmação. Seu pensamento estava na figura de sua mãe, na boca um pedido de desculpa que não saiu e uma frase que confortaria um pouco o coração dela. “Eu não sou que nem eles, mãe, eu não sou que nem eles.”

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