A SUICIDA QUE MORREU DE RIR – CONTOS CRÔNICOS #12

Flower

“Não dá, se eu não escrever, eu morro, morro também escrevendo, vivendo, sofrendo, morro por que há vários tipos de mortes invisíveis que dificilmente são percebidas. Morro numa morte que adormece no meu inconsciente e a carapaça já não tem mais a capacidade de disfarçar. Ando naufragando em qualquer gota de chuva e chove muito, não para de chover. Não adianta apertar o F5 ou arrastar a tela procurando uma atualização, a vida anda parada, fazendo com que a janela aberta do meu quarto e uma violeta em cima da minha mesa serem a coisa mais perto de um ser vivo que perambula perto da cama. Quando chega a hora de dormir é um martírio, fechar os olhos é um convite para a total negação, todo dia eu pergunto se realmente preciso acordar. Meu despertador é um cão guia surdo, apesar de ser o único que ouve minhas lamúrias e meu grito desesperado de atenção. Ontem eu tive um sonho em que tudo estava resolvido, mas, infelizmente, acordei. E por isso escrevo, escrevo para avisar que preciso voltar a dormir e desejar que a pessoa que leia essa carta saiba que amo muitas coisas ao meu redor, mas ela não me seguram, são cordas gastas que parec… ”

– Ai caneta, por favor, não vai falhar agora. – A menina riscava o papel com força para fazer alguma tinta aparecer. Ela fez isso tentando escrever a palavra que desse sequência àquela carta, tentou no fundo da página, no verso da folha, nada, nadica de nada, aquela caneta realizou com sucesso o que sua dona queria.

– Vixe, que dia de azar, ou sorte, ou azar, não sei. – Uma voz interrompeu a décima tentativa de fazer a caneta funcionar. A menina abriu a mochila e procurou no estojo, mas só tinham lápis e, pela sua expressão de desdém, eles não serviam.

– Cala a boca. – A garota se levantou e ficou andando de um lado pro outro.

– Você não tem outra caneta?

– Você é a planta mais estúpida que eu conheço. – Ela se jogou na cama. – Se eu tivesse outra caneta, já teria pegado.

– E lápis, por que não termina a carta com um lápis?

– Quando você vai parar de falar besteiras? – Ela jogou o corpo para frente como se alguém forçasse-a sentar. – Quem é que escreve uma carta de despedida com um lápis? Parece que você nunca viu os documentários sobre os astros de rock! Não me admira que sua antiga dona não chorou quando me deu você.

– Você tem que ser tão ofensiva assim? Eu só estou tentando te ajudar.

– Com esses conselhos? Tente me dar um conselho consciente pra ver se dará certo. – O silêncio só não era possível por conta da música alta sendo tocada pela festa de aniversário de quinze anos da vizinha.

– Vamos lá, plantinha, você consegue me dê um bom conselho? – Era difícil um momento em que palavras de carinho saíssem da sua boca.

– Você pode pedir a sua mãe uma caneta emprestado.

– O quê? – A menina pulou da cama. – Você só pode estar de brincadeira? – Ela foi até a direção da porta e fez uma postura com um mix de breguice e arrogância. – “Ei, Yasmim, está aqui a caneta para você terminar a sua carta e depois pegar o estilete que eu gastei o meu tempo comprando e passá-lo nos pulsos.” – A imitação não foi muito boa, mas arrancou risos da pobre planta que só queria ver sua dona sair “bem” daquela situação.

– Já é tarde, então não vou sugerir que você saia pra comprar uma.

– Muito obrigado. – A menina voltou pra cadeira e encarou o que já tinha escrito na carta.

– Você acha que faltam quantas linhas pra acabar?

– A minha vida ou a carta? – Dessa vez havia silêncio, parece que até a festa ao lado tinha percebido o peso daquela pergunta. – De que adianta eu te responder isso, você é só uma planta.

– Isso impede a gente de conversar?

– Isso me impede de te ouvir, eu nem sei por que eu te dou ouvidos.

– Você preferia quando eu era uma muda? – A pergunta foi feita com total inocência. A menina olhou para a planta com um pranto raivoso desolador nos olhos, mas aquelas lágrimas que estavam prestes a sair foram comprimidas com as maçãs do rosto que formavam um riso curioso diante do trocadilho feito pela pobre planta. As duas começaram a rir, uma contagiando a outra, nem entendiam muito bem do que riam, só riam, sorriam, como nem se lembravam. A garota caiu da cadeira de tanto rir, a planta, imóvel, continuava acompanhando a sua dona. De repente, um som estampido foi ouvido na porta. Alguém batia nela com ansiedade. As duas fizeram um silêncio repentino:

– Yasmim, você está aí, está acontecendo alguma coisa?

– Não, mãe, não está acontecendo nada.

– Vá dormir, já está tarde.

– Estou indo, mãe, estou indo.

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