HOMÔNIMOS – CONTOS CRÔNICOS #14

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Ir pra missa todo domingo pela manhã é a minha única forma de dizer a Deus que eu ainda continuo temente. Mas, infelizmente hoje, era diferente. Domingo dia dos pais, passar o sábado procurando caixão, local em cemitério e formas para amenizar uma dor que dói, não é a véspera escolhida naqueles cadernos que perguntam como será o seu futuro. Enterrei meu pai em um dia comum, na certa era algum desses dias que se comemora profissões; dia do enfermeiro, do esteticista, do bombeiro mecânico. Não sei como seria enterrá-lo no dia dos pais, mas sempre alguém morre e a morte não respeita o calendário. Meu tio se chama Elson Malaquias dos Santos, o nome que minha mãe me deu em homenagem a seu querido irmão. Quando percebi que tínhamos nomes iguais, sorri. Mais velho, achei que aquilo poderia me dar algum problema, ele nunca respeitou muito bem as regras e leis, tinha bom coração (não fisicamente), mas era o típico brasileiro com o seu jeitinho. A questão é que eu cheguei cedo na missa do domingo e coloquei o nome do meu tio entre os que receberiam as orações do padre, só não pensei em como aquilo me impactaria.

– Temos aqui os desencarnados que irão receber nossas preces para que descansem em um bom lugar: Valdisnei Matos, Davi Borja, Elson Malaquias Santos… – Elson Malaquias Santos? Poucos terão o desprazer de ver seu nome associado a uma pessoa morta. Todos começaram a oração, mas na minha cabeça tinha somente aquela estranheza ao ouvir que eu estava morto… não numa morte tradicional, mas aquela que te dá um soco e já antecipa a, desculpa o clichê, única verdade da vida.

No cemitério, eu li a lápide e ali estava novamente: Elson Malaquias dos Santos. Morto. A terra se alimentando do que há pouco era uma vida. O que é você se não um nome que dá a alcunha a algo tão frágil? Um quilo de vida pesa mais ou menos que um quilo de morte? Meu nome está ali, eu estou aqui, meus familiares estão chorando, o que falta pra que esse cenário seja o meu? Nada me afasta de estar deitado com algodão no nariz e os olhos forçosamente fechados. Ainda era dia dos pais e eu nem me lembrava disso. Certamente, a morte é o homônimo da vida.

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