O SUICÍDIO DO PAPAI NOEL – CONTOS CRÔNICOS #11

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Há quem reconheça o Papai Noel pela sua vasta barba natalina, pelas suas cores rubro negras ou pela risada monumental que impede que pessoas riam dessa forma em qualquer mês que não comece com 1 e termine com 2. Daqui de cima é engraçado ver como a publicidade se apropria do Sr. Klaus para colocá-lo em situações inusitadas; ele joga bola, pula de paraquedas, colhe flores em jardins, faz pizza, anda de skate… Nós sempre fazíamos uma coletânea com as melhores e passávamos horas dando risada. Ele ria de chorar, só que hoje em dia, ele só chora. Acho muito difícil que essa reunião aconteça esse ano, O Sr. Klaus perdeu todo o seu espírito natalino.

“…por favor, Papai Noel, eu não briguei com minha mãe nenhuma vez nem quando ela não quis me dar o celular e nem quando ela disse que eu não ia pder ir pra festa da Rê, ela até me pediu pra lavar os pratos e  mesmo xateada eu lavei o prato dela. Acho que mereço o iphone 11, nem presisa da capa, pois ela me disse que eu não podia pedir duas coisas para o senhor. Espero que leia minha crta com carinho. Feliz Natal, Papai Noel. bjs Elisa.”

– Com licença, Sr. Klaus, posso? – Eu era um dos poucos ajudantes com coragem de entrar na sala dele.

– Você ouviu, Dedé, ouviu? – Aquela poltrona parecia cada vez menor. – Não é possível, ela se acha uma boa criança só por que não brigou com a mãe, acredita? Só por que não brigou com a mãe!

– Calma, bom velhinho, olha o coração.

– O meu ou o deles? – Ele apontou para uma pilha de cartas com o carimbo azul de devolução. Aquilo era algo raro no passado, mas o prazer em entregar presentes havia sido substituído pela decepção estampada em cada ruga do rosto do Sr. Klaus.

– Trago uma boa notícia. – Sentei no banco em frente, era um daqueles que o recosto acaba no meio das costas, tipo os da praça de alimentação, bancos que te convidam a ficar mais em pé do que sentado.

– Será uma raridade nessa sala. – Apesar de estar sempre com raiva, Sr. Klaus ainda era um bom ouvinte.

– Tem uma criança, uma criança para resgatar a sua esperança. – Fiquei com vontade de apontar a rima que havia feito, mas nunca entendi por que todos precisam dizer quando rimam… mas fiquei com vontade de fazer.

– Cadê a carta dela?

– Ela não mandou. – Isso era um problema, Sr. Klaus respeitava muito os protocolos. – Maaaaaaaas, estive monitorando algumas crianças e ela é a certa para mudar de opinião.

– E por que ela não mandou a carta?

– Na verdade, foi um trabalho da escola, acho que a professora que ficou de enviar, ela ainda…

– E por que ela não enviou? Até os professores estão mudados? Estamos mesmo perto do fim.

– Calma, Sr. Klaus, calma.

– É a era das trevas. – Um raio pode ser visto e ouvido, fazendo as janelas da sala demonstrarem medo. – Estou dizendo, esse deve ser o sinal.

– Eu não acredito em sinais. – Me levantei. – Acredito na importância das dúvidas e você deve duvidar dessa sua ideia de desistir do Natal, o Senhor tem que dar uma última chance para a humanidade.

– E se eu me decepcionar de novo?

– Aí o senhor pode fazer o que quiser.

– O que eu quiser mesmo?

– Sim, o que quiser. – Selamos o acordo com um aperto de mão e marcamos nossa missão para a manhã do dia seguinte.

– Não tem chaminé nesse lugar. – Sr. Klaus parou no meio da sala analisando todo o ambiente.

– Talvez não seja preciso. – Tropecei em uma fileira de calçados perto da porta. – Está quente, quente como nunca senti.

– Mas precisamos de uma chaminé.

– Nós sim. – Tirei um filete de suor da minha testa com o dedo. – Mas eles não.

– E onde eu irei colocar isso? – Sr. Klaus tinha uma enorme caixa retangular nas mãos. Ele mesmo fez questão de embrulhar, colocou umas flores verdes e vermelhas, suas cores prediletas.

– Pode colocar ali em cima. – Havia um tipo de estante escrita SINGER com uma pequena televisão em cima, dava pra colocar a caixa ao lado.

– Não, ali não cabe, e ali não é uma chaminé.

– Eles não têm uma chaminé. – Fui me aproximando para pegar o presente da mão dele. – Vamos, me dê isso, é só deixar ali, encaixar a cartinha e podemos ir embora.

– Não, já que não tem uma chaminé, eu mesmo irei entregar pra ela.

– Não, não, isso não vai fazer sentido, ela irá estranhar o Senhor aqui nessa época.

– Que época? – Ele sentou-se no sofá e ouviu suas molas desgastadas reclamarem daquele corpanzil. – Que criança estranharia o Papai Noel no Natal?

Me aproximei de uma folhinha com a imagem de Nossa Senhora e apontei a data.

– Setembro? Como é que você me faz sair de casa em Setembro?

– Você esteve tanto tempo naquela sala que perdeu a total noção de tempo.

– E o que estamos fazendo aqui em Setembro? – Ele se levantou e ouviu um sussurro de alívio do sofá. – E por que esses fogos? Eles estão comemorando o que em Setembro?

– O povo daqui é muito festivo, eles têm várias datas de comemoração.

– Jura? Agora mesmo que vou ficar e entregar, ela nunca vai acreditar que foi o Papai Noel em Setembro se não me ver ao vivo, vai achar que foi um desses alvos da comemoração deles.

– Mas, Sr. Klaus, é que…

– Mas nada. – Ele se aproximou de uma mesinha onde havia vários porta-retratos. – Você disse que essa menina iria me fazer recuperar a esperança, pois bem, quero conhecê-la.

– Pelo menos me deixa explicar primeiro. – Ele nem estava prestando atenção no que eu estava falando. Pegou um porta-retrato com uma foto estampando um belo sorriso inocente da menina.

– Ela já está chegando?

– Sim, sim, ela vem de Kombi.

– O que é uma Kombi?

– É uma rena branca gigante que fica soltando umas flatulências enquanto anda.

– Eu prefiro as minhas. – Ele estava encantado com aquele sorriso, fazia tempo que eu não via a esperança brilhar em seus olhos. – Você ainda nem me disse o nome dela?

– É verdade. – Peguei as minhas anotações. – Agatha, Sr. Klaus, Agatha Vitória.

– Que bonito nome. – Ele sorriu.

– É, Sr. Klaus, bonito mesmo.

– Ela já está chegando, né?

– Sim, Senhor, já está chegando.

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