Cantando o Conto #001 – Vidinha de Balada

“Sextou!” Era o que mais se lia nas redes sociais naquele final de sexta. Juliana nem prestava atenção na última aula da faculdade, de onde estava, já conseguia ver seus amigos no aquecimento pré-final de semana. Levantamento de copo, revezamento de bandeja, tampinha no lixo à distância, eram tantos esportes praticados ao mesmo tempo e ela dentro daquela sala.

– Maldita lista de presença. – Sussurrou enquanto via aquele papel imóvel na mesa da professora. Pensou em uma boa estratégia para conseguir colocar seu nome sem que a professora percebesse sua artimanha. Porém, nunca foi tão astuta, pelo contrário, era de uma inocência que dava dó. Seus olhos claros refletiam a vontade de não estar ali, mas havia algum código de moral que não a fazia se levantar, mesmo já assumindo que nada dito pela professora seria absorvido, fosse um simples apontamento sobre o assunto da semana, fosse uma oportunidade de viajar para a Europa com tudo pago pela faculdade. A professora pediu para que todos pegassem o caderno para anotar a atividade pra casa. No quadro e com um sorriso escondido, ela escreveu “hora de sextar” e liberou a turma. Saída triunfante, se todos estavam ali xingando-a mentalmente, aquele silêncio terrorista virou abraços carinhosos, despedidas acaloradas e até um convite para tomar uma cervejinha, que foi recusado com a devida educação.

Os amigos de Juliana a esperavam ansiosamente do outro lado da rua. Ela só estava esperando o fluxo de carros diminuir. As sextas eram caracterizadas por encurtar a distância entre a vida e a felicidade. Um carro conhecido foi se aproximando, ela, inicialmente, não percebeu, mas os seus amigos esconderam os sorrisos e apontaram com os dedos. Não dava para ouvir o que falavam, mas ao olhar, Juliana entendeu.

– Oi, tudo bem? – O carro parou bem perto dela. Ele não ligou se construiria um pequeno engarrafamento, somente parou.

– Oi. – Toda aquela alegria que havia quando ela saiu da sala sumiu. Era Henrique, seu ex-namorado. Os ótimos momentos que eles passaram juntos sumiram de sua mente depois das ligações insistentes, das tentativas que ela classificava como desesperada para as amigas e normal para mãe, evitando qualquer tipo de preocupação materna.

– Desculpa a visita inesperada é que é sexta sabe. – Alguns carros começaram a buzinar. – Vamos dar uma volta?

– Eu marquei com meus amigos, Henrique, a gente já tinha marcado a mó tempão.

– Seus amigos de novo, né? Ficar indo pra festa bebendo, é só o que eles sabem. – Mais buzinadas e cada vez mais violentas. – Entra aí, só pra eu estacionar isso em algum lugar, esses chatos não vão me deixar em paz.

– Eu espero você estacionar.

– Entra, Juliana, deixa disso. – O tom de voz dele não parecia dar outra opção a ela. Juliana olhou para os amigos, olhou para o carro, voltou a olhar pros amigos e se viu sem saber o que fazer. – Vamos lá, eu não sou esse monstro que você pensa, me deixa te mostrar isso. – Ela jogou o cabelo para trás da orelha, apertou o caderno contra o peito e resolveu acreditar que Henrique havia se arrependido do seu comportamento mais recente. Os amigos acenaram pedindo que ela não entrasse, pareciam temerosos… não adiantou. O carro saiu tão rápido que eles nem tiveram a certeza da interpretação sobre o sorriso na cara de Henrique.

– Tem uma vaga ali? – Ela apontou para a frente de uma farmácia que ficava ao lado da faculdade.

– Eu sempre estaciono em uma que fica lá na frente.

– Mas aí nós teremos que andar mais. – Henrique esperou ela terminar a frase e aumentou um pouco mais o som. Tocava uma música romântica, pelo menos era assim que ela inicialmente achava, até que um dia percebeu o que realmente significava, igual ao seu namoro, igual ao seu namorado. Ele não estacionou na farmácia, não estacionou onde disse, não estacionou em lugar nenhum. Ela começou a chorar em silêncio, ele odiava ver lágrimas caírem sem motivos, o que a fazia engolir o choro como se temesse qualquer reação nesse sentido.

– Não me faça…não me faça nenhum mal, por favor…por favor.

– Mal, meu amor, eu não vou te fazer mal nenhum. – Os faróis dos outros carros refletiam nas lágrimas presas nos olhos dela. – Eu só quero chegar logo pra você ver a sua surpresa. – Henrique acelerava bastante, algo que Juliana nunca gostou.

– Eu não quero surpresa, me leva pra casa, por favor.

– Você ainda nem viu, meu amor, você vai adorar. – Ele aumentou mais o som. Juliana pegou o celular, já estava pensando em fazer aquilo,  mas não sabia como Henrique reagiria.

– Guarda isso, guarda isso agora. – Ele falou alternando o olhar entre a estrada e o celular.

– Eu preciso contar a minha mãe que chegarei mais tarde.

– Ela não precisa saber, guarda isso.

– Precisa sim, Henrique, ela vai ficar…

– Eu mandei guardar. – Henrique puxou o celular da mão de Juliana e jogou pela janela. – Você está estragando tudo, eu fiz tudo pensando em você e você está estragando tudo. – Juliana não segurou mais o choro. Escondia o rosto entre as mãos enquanto a memória fazia questão de lembrá-la de todo o terror que passou nos últimos momentos em que esteve naquele carro.

– Calma, amor, calma, você quer saber qual era a sua surpresa? Quer saber? Abre o porta luva, vai, abre aí, você vai adorar. – Quanto mais carinhoso ele era, mais soava ameaçador. Juliana temia ver ali dentro o que sentenciaria a sua vida, mas o que viu foi pior ainda. Com as mãos tremendo, ela abriu uma caixa e viu duas alianças douradas reluzir toda a insanidade do olhar de Henrique.

– O que isso significa? – Sua voz trêmula mal deixava as palavras saírem.

– Vamos deixar tudo de lado e recomeçar. – Ele exibia um sorriso que misturava uma mente alucinada com uma inocência doentia. – Vamos unir nossos corações de novo, tudo dará certo. – Juliana olhava incrédula para aquele par de alianças. Felizmente, a falta de preocupação de Henrique não o fez exigir que colocasse o cinto. Ela nem pensou direito, abriu a porta do carro, mesmo seu velocímetro marcando mais de 90 Km/h e pulou no meio da estrada. Não era uma estrada muito deserta, poucas pessoas estavam na rua, mas uma quantidade suficiente para estranharem o porquê uma pessoa sairia de um carro naquela velocidade.

– ME AJUDEM!!! ME AJUDEM!!! – Ela gritava vendo o osso de seu braço direito para a fora e sentindo uma forte dor no ombro. – PELO AMOR DE DEUS, ME AJUDEM!!!! – Alguns curiosos começaram a se aproximar, aquela mulher clamava por piedade e qualquer um que tivesse um bom coração faria algo para ajudá-la. A questão é que alguns nascem com um vazio no peito esquerdo e se esquecem que a vida é um bem que não se pode guardar numa jaula. Henrique fez meia volta em um cavalo de pau que pode ser ouvido pelos satélites da nasa e voltou na direção de Juliana. Os transeuntes que iam se aproximando pararam ao perceber aquele carro em extrema velocidade chegando cada vez mais perto.

– ME AJUDEM!!!! ME AJUDEM!!!! DEUS, ME AJUDAAA… – As últimas palavras de Juliana foram sufocadas pelo estampido violento que se deu entre o choque do seu corpo caído com as rodas do carro de Henrique. Ele estava tão veloz que quase perdeu o controle, ou melhor, seu descontrole levou tudo aquele nível. Todos ficaram boquiabertos. Uma jovem tomada de sangue  e dor estava deitada ali, desfalecendo pelo ódio de alguém que não consegue ouvir um não. Juliana virou estatística, número, notícia em um jornal pouco lido, debate em rodas femininas que, apesar do fato, conseguem divergir. As princesas nos enganaram; há finais felizes, há finais infelizes e há finais.

2 comentários Adicione o seu

  1. Maju disse:

    Juro que, quando vi no Instagram, pensei que seria um conto romatizando a música. Vc é muito phoda! Conseguiu transformar uma música que faz pouco caso de abuso fantasiado de amor em um conto arrebatador e realista. Por todas as Julianas que tiveram o desprazer de topar com algum Henrique na vida, muito obrigada!

  2. Jôse disse:

    Ahhh m eu querido poeta…
    Vc desmascara a violência contra mulher escondida nas entrelinhas de letras “românticas” de forma clara, contextualizada… 👏👏👏
    Letraa tradicionalmente vista como “romântica” e inocente e, que de fato, o que se tem é abuso contra a mulher…
    Um alô para tds que consomem a dita sofrência e a dita loucura por amar demais…
    Uma reflexão, que por trás da “sofrência” romântica, pode haver alguém sofrendo muito de verdade na vida real…
    Um chamado para uma nova visão do tal do “eu faço isso por que te amo”…
    Se faz necessário cada vez mais , este trabalho de despertamwnto de consciência ….pois mesmo com todo o debate público sobre, feminicidio, abuso, assédio e violência contra mulheres, canções que incitam todas estas violências, continuam chegando ao topo das mais tocadas, estas músicas fazem sucesso porque fazem parte de um meio social no qual são aceitas. .. Infelizmente…
    Parabéns meu Poeta Crónico.

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