Cantando o Conto #002 – Tijolos na Parede

Texto, Locução e Edição de Anderson Shon

Tijolos na parede

O sinal bateu, era a constância robótica que andava pelos telhados daquela escola. Sete horas, sete e quinze, sete e cinquenta, oito e quarenta, nove e meia. Intervalo, hora em que os alunos produziam barulhos ensurdecedores, tudo que não podia ser feito em sala de aula para que os professores não atingissem a insanidade mais rápido que o previsto. A turma do sexto ano (antiga quinta série) não iria desfrutar daquele momento. Aquela quarta-feira ficaria marcada como o dia em que o professor Roger havia conseguido bater um recorde pessoal; nenhum de seus alunos terminou a atividade a tempo de sair para o recreio (ou intervalo, a depender de como o aluno se olha no espelho) e todos ficariam na sala para aprender a terem uma maior disciplina na hora das tarefas.

– Não é possível, ninguém, NINGUÉM! – Ele andava pela sala trocando passos curtos e passos longos. – Agora eu vou ter que perder o meu intervalo por culpa de vocês, por que vocês não conseguem se concentrar um minutinho para fazer a obrigação de vocês! ESTÃO OUVINDO? – Um professor com a razão na mão pode ser uma arma letal. – Isso é uma pergunta, entendem? Tem uma interrogação no final! Parece até que eu estou falando com as paredes, era só o que me faltava. – Ele voltou a se sentar. – Vamos, quero ver se agora vão continuar brincando! QUERO VER! Eu perco meu tempo passando as atividades e explicando e dizendo a forma mais fácil de resolvê-las e sentando do lado de cada aluno para tirar dúvidas e nada, ABSOLUTAMENTE NADA!!!!!! – O silêncio era rasgado pelos gritos furiosos do professor. – Vocês vão ficar sentadinhos aí enquanto eu pego meu lanche. – Um deles ousou levantar a mão. Era um aluno de rosto largo e olhar caído. Na sua mesa um caderno aberto manchado pela caneta que havia estourado, talvez fosse o excesso de suor que saiu dos seus enormes dedos.

– E nós não vamos lanchar?

– Vão… vão sim… VÃO LANCHAR CADA PARTE DESSA ATIVIDADE. – O professor foi saindo da sala com o sanduíche nas mãos, mas um aluno sentado ao lado da porta o impediu de abri-la.

– Se nós não vamos, o senhor também não vai. – O aluno mantinha a mão na porta.

– E quem é você, Sidney, quem é você?

– Nós estamos com ele, professor Roger. – Uma menina do fundo da sala se levantou. – Ninguém mais aqui aguenta seus sermões.

– Ninguém aguenta? E você acha que eu aguento uma turma que não quer nada.

– Retire o que você disse, agora! – Sidney se levantou. Ele não era imponente, devia medir seus 1,71, era alto para uma criança, mas o professor, que apresentava algum sobrepeso, poderia lidar facilmente com ele.

– Saia da minha frente, moleque, antes que eu…

– Antes que o quê? – Outro aluno se aproximou.

– Você também, Anderson? Seu tio vai adorar saber dessa sua rebeldia. – O professor começava a apresentar um tremular na voz. – A coordenação vai deixá-los sem intervalo durante uma sem… onde está meu celular? – O professor viu que seu aparelho não estava mais em cima da mesa. Uma aluna de óculos estava com ele nas mãos, não ele todo, mas suas peças separadas, algumas até desparafusadas. Dois alunos bloqueavam a porta, outros bloqueavam as janelas. Alguns pegaram a mochila do professor para se certificarem de que ele não teria como se comunicar com alguém que estivesse fora daquela sala.

– Vocês vão me obrigar a gritar?

– Mais do que você grita sempre?

– Vocês vão se arrepender muito, quando eu sair daqui exigirei que um por um seja expulso. – Os alunos, que ainda estava sentados, se levantaram e foram em direção do professor. Seu olhar desesperado clamava por pena. Até a cadeira sentiu o pesar da situação e quebrou, como se compactuasse com aquele motim. Os alunos foram se aproximando, bloqueando a forte luz da lâmpada central da sala e fazendo com que suas sombras atacassem cada falsa confiança criada como escudo do professor. Ele estava no chão, as mãos protegendo a cabeça, aquelas inocentes crianças tinham um olhar avermelhado e emanavam um gás verde que só ele podia ver, mas não queria, não queria acreditar que aquilo tudo era verdade. Aqueles fantasmas fizeram com que as lembranças de um vida miserável pipocasse na mente do professor e quase como uma jukebox que recebeu uma ficha, ele começou a soltar sons dificilmente compreensíveis:

– Eu não quero você em cima de mim, eu não aguento, para de me bater, para de me bater, coloque as rodinhas, eu não consigo ficar de pé, por favor, por favor, não tire a sobremesa, eu só almoço pensando na sobremesa, não tire as rodinhas, eu não quero você em cima de mim, chega de abraços por hoje, por favor, eu não consigo ficar de pé, por favor, por favor…

– O que aconteceu com ele? – O diretor da escola enrolava sua barba aureolada com as mãos enquanto uma interrogação enorme estampava o seu rosto.

– Não sabemos. – Todos os alunos estavam sentados nas cadeiras com os cadernos abertos e as atividades feitas. – Ele começou a balbuciar essas palavras, nós ficamos assustados, não sabíamos o que fazer, foi aí que chamamos o senhor.

– Estranho… e por que vocês não foram pro recreio, isso aconteceu agorinha, né? É horário do recreio.

– Nós não podíamos deixar nosso professor aqui sozinho, diretor, não seria certo abandoná-lo aqui.

– Bons alunos, eu me orgulho de vocês, nós vamos cuidar do professor Roger, vão espairecer lá fora, vocês estão liberados para o recreio.

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