ENTRANDO NO FUNDO DO POÇO – BLACK NERD #004

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E o troféu Dornie Darko de 2020 vai paaaaaara…

O Poço, novo filme da Netflix, chegou com zero expectativas, mas conseguiu causar enorme curiosidade, chamar a atenção de desavisados e arrancar ótimas críticas. Oriundo do cinema espanhol e com um diretor estreante, Galder Gaztelu-Urrutia, o filme conseguiu fisgar por suas metáforas, seu roteiro e um final que abre pra diversas possibilidades, agradando cinéfilos que adoram ficar horas criando teorias. Porém, não foi o final que mais me chamou atenção, foi como esse filme é essencial para que consigamos olhar o todo entendendo bem de onde estamos. O Poço é como uma lente fundamental para, talvez infelizmente, decifrar as engrenagens da nossa sociedade.

A alegoria simples e quase direta é sobre a forma como a sociedade é dividida. Um embaixo do outro, sempre sonhando para subir e morrendo de medo de descer. Talvez isso não chamasse tanto atenção se não fosse pela plataforma cheia de comida que vai passando pelos andares e suscitando de cada pessoa o pior que há nela. A incapacidade de praticar a empatia localiza esse filme perfeitamente nos tempos de corona, onde se empilham caixas de álcool em gel, rolos de papéis higiênicos sem se preocupar se isso pode faltar para o próximo. Esse egoísmo animalesco fica ainda mais irracional quando percebemos que antes de entrar no poço, cada pessoa diz seu prato favorito. Então, era somente cada um comer o seu e todos se alimentariam.

Cada pessoa que entra no poço pode levar consigo algo. O personagem principal carrega o livro Dom Quixote de Cervantes, algo que fala muito sobre si mesmo. Igual a Dom Quixote, Goreng acredita que está sendo um herói só por pensar em formas de como transformar tudo aquilo em um modelo mais igualitário. No entanto, suas ações são ínfimas e seu companheiro de andar, Sr. Brambang, o lembra de que nada tão raso mudará aquele sistema. Seu jeito de fazê-lo entender é simples; ele urina e cospe nos que estão embaixo, alegando que faz isso por que é exatamente o que os de cima fazem. Dom Quixote e Goreng tem atitudes tão heroicas quanto as pessoas que ajudam uma velhinha a atravessar a rua.

Já teve algum momento em sua vida que uma consciência inocente te fez duvidar sobre a ignorância das pessoas que tem poder diante a tanta miséria no mundo? Quando Goreng fica no mesmo andar de Baharat, eles têm a brilhante ideia de “avisar” para as pessoas de cima o quanto o poço era um local péssimo para se viver. Esse pensamento infantil dos dois é envolto a um otimismo desesperado que me faz lembrar muito abaixo-assinado virtual, vomitasso em redes sociais, a moda do cancelamento e outros manifestos gourmet. Falando em gourmet, vale a ressalva do tipo de chef que coordena a cozinha do poço. Um rapaz que reúne funcionários para identificar de quem é o cabelo que está em sua panacota. Esse é o tipo de preocupação dele, a vida das pessoas no poço está em 333° plano.

Entender O Poço só como um filme pretensioso também é possível, pois há tanta denúncia sendo feita, que, por vezes, é melhor ser o cego que não quer ver. Se colocarmos um espelho na frente da tela, aparecerá no reflexo seu vizinho, sua comunidade, a padaria da esquina, você… com certeza você estará sendo refletido em algo ou alguém que está no poço, seja nos que estão em cima, seja nos que estão embaixo, seja nos que caem. #WakandaForever

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