Cantando o Conto #004 – Um Real

– Cerveja quente, Baltazar? Num aprende nunca!

– Cala a boca e vá trocar essa camisa.

– O quê? Qual o problema da minha camisa?

– Nenhum se ela estivesse vestindo a sua irmã.

– Ahhhhhh, cala a boca e senta aí que agora é a hora.

– Para de ficar olhando pra lá assim, vai dar pinta.

–  Agora você é meu patrão?

– Bebe um pouco e relaxa

– Eu não preciso rela… agora, é agora, vamos!

– Calma, calma, espera aí! é a Bruna, neta da dona Oliveira.

– A dona Oliveira que serve a marmita pra corporação?

– Isso, é ela mesmo.

– Não pode ser, ela fala que a neta dela é universitária e não uma traficantezinha de merda.

– É, mas é ela mesmo, eu sigo nas redes sociais.

– O quê? Pra que você segue ela?

– Sei lá, ela põe umas fotos de biquíni, você tem que ver.

– Eu num quero maconheiro na minha rede social não, Baltazar.

– Ela num é maconheira não, a dona Oliveira disse que foi ela que a ajudou a começar o negócio da quentinha.

– Com dinheiro de maconha, Baltazar, deixa de ser inocente, você já viu maconheiro não fazer mal a alguém?

– Na verdade, já, eu cheguei a fazer o primeiro semestre de filosofia, tô no grupo de whatsapp deles até hoje.

– Você é uma vergonha para a corporação. Vou esperar o rapaz ali pagar pra pegar ela em flagrante.

– Rapaz, a dona Oliveira é da comunidade também, você vai querer que ela passe essa vergonha? Pensa direi… vixe, só um real?

– Eu vi ele puxando uma nota verdinha, daquelas de um real mesmo.

– Maconha é barato assim?

– Por isso que o chefe disse que ela é a entrada para outras drogas, começa com a maconha, depois vem a cocaína, o craque, só piora.

– É… realmente.

– Realmente o que, Baltazar? E outra, tá querendo criar mosquito da dengue nesse copo? Então bebe essa cerveja aí enquanto eu decido o que a gente vai fazer.

– Já disse, deixa pra lá, a menina é estudiosa, batalhadora, não tá matando e nem roubando.

– Tá traficando! Você sabe quantas pessoas morrem por causa de maconha?

– Na verdade, eu não sei.

– O chefe disse que é um monte de gente, Baltazar, um monte de gente. Eu vou dar esse flagrante é agora!

– Calma, calma, espera a próxima venda, essa aí já foi, o rapaz até já guardou a maconha.

– A gente não tem o dia todo, o chefe quer esse caso solucionado hoje.

– Você sabe que a gente vai ficar sem nosso almoço, né?

– A gente compra em outro lugar.

– E aquela pimenta deliciosa, o outro lugar vai fazer também?

– Cala a boca, Baltazar e levanta.

– Nós temos que pagar a cerveja.

– É quanto mesmo?

– Quatro reais.

– Só tenho cinco, traga o meu troco.

– Troco? É verdade, sobra um real de troco.

– Um real, né?

– É… um real.

– Hum… um real.

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