Cantando o conto #005 – O Lobo

Texto, Locução e Edição de Anderson Shon

Infelizmente, sair do condomínio era a primeira batalha diária na vida de Antônio. Tanta gente morava ali e saia categoricamente às 07:00, que não tinha diferença fazer rodízio de carro ou não. Naquela manhã, recebeu uma mensagem perguntando se poderia chegar ao trabalho mais cedo, ignorou, mas se sentia arrependido, vinte minutos antes o impediria de ouvir aquela orquestra de buzinas mal ensaiadas. Trabalhar longe de casa era um pesar, havia aberto seu escritório com amigos e a primeira cláusula era geográfica. Ou perto, ou nada. Mas nem tudo está sobre controle, o crescimento repentino devido a um processo vitorioso contra um famoso e gigante canal de youtube colocou-os em uma evidência inesperada e em pouco mais de dois anos, já ocupavam uma sala bem confortável em um dos prédios empresariais mais disputados da cidade.

Antônio nunca foi bom em fisionomia. “Bom dia, amigão! Bom dia, moça” era seu mantra até entrar no escritório. Na porta, em alto relevo, o sobrenome dos três advogados em um dourado brilhante revelando o sucesso que os últimos meses haviam proporcionado.

– Doutor. – Ele entrou cumprimentando silenciosamente a secretária. -, o Doutor Sales está lá dentro, ele está esperando o senhor.

– Doutor Sales? Mas nós fizemos de tudo pra que nenhum processo nosso tivesse que parar na mão dele.

– Não é sobre um processo nosso, nem é com ele, são os…

– Esquece, esquece, eu vou lá ver. – Antônio ajeitou a gravata, parou em frente ao espelho que havia na recepção e, apesar de estar com muita vontade de ir ao banheiro, preferiu ir ver o que o esperava.

– Antônio, né? – Um rapaz grisalho desabotoou o terno para conseguir levantar e cumprimentá-lo. – Achei que teria que pedir uma pizza para o almoço.

– O trânsito dessa cidade não ajuda. – Ele sorriu, a justificativa não fazia sentido, pois havia chegado dois minutos antes do seu horário cotidiano.

– Esses são Joseph e Ricardo, meus filhos idiotas. – Ele riu e se sentou novamente. – Sente-se, eles têm uma boa história pra contar pra você. – Antônio não precisava de autorização para fazer nada dentro do seu próprio trabalho, mas preferiu obedecer. O silêncio reinou, um olhava para o outro como se esperassem que palavras caíssem do céu.

– Qual foi a besteira que vocês fizeram? – Era dedutível e Antônio aprendeu com a vida que jovens fazem muita besteira.

– Supostamente, estupraram duas meninas, cada um uma, quase que simultâneo, eu acho, são irmãos unidos, os mais unidos que eu conheço, que bonitinhos. – Dr. Sales tentava manter alguma serenidade no fim de cada comentário, mas nem sempre era possível.

– Estupro? – Antônio engoliu seco. – Hum… – tirou um caderno de dentro da mochila. – Vamos, preciso que me contem tudo.

– Não foi estupro, meu pai é exagerado.

– E preciso que não mintam, eu tenho…

– Nós já passamos em todos os escritórios que você possa imaginar. – Dr. Sales se levantou novamente. – Eu sou um homem de influência e você sabe disso, vocês daqui sabem, nem isso me ajudou, então eu vou pro dinheiro. – Ele tirou a carteira do bolso. – Esse processo não pode parar na minha mão e naquele fórum ninguém pensa em ninguém. – Ele deu uma pausa esperando que Antônio tivesse alguma reação. – Então, você quer quanto? Diga aí! mas eu quero a garantia dos meus dois filhos fora da cadeia.

– Eu preciso escutá-los primeiro, doutor.

– Eles são uns idiotas! VOCÊS SÃO UNS IDIOTAS!

– O que vocês fizeram?

– Nada, eu não fiz nada. – Joseph não parava de mexer no boné.

– Eu também não fiz. – Ricardo tinha um celular desligado em mãos.

– Então, baseado no que o pai de vocês falou, vocês tiveram relações sexuais consensuais com meninas, certo?

– Eu sim. – Ricardo não olhava para Antônio.

– Você? A menina estava bêbada, completamente bêbada. – Antônio fazia anotações pontuais. – Eu posso falar por mim, doutor, a menina sentou no meu colo e ela estava sem calcinha, eu posso ter interpretado errado a mensagem dela.

– Ela tropeçou e caiu no seu colo e ela só tava sem calcinha por que você deu a ideia de esconder todos os papéis-higiênicos da festa, obrigando as meninas a limparem com a própria calcinha e depois jogar fora. – Dr. Sales tentava mostrar indignação, mas deixou um sorriso de canto de boca fugir quando percebeu que havia criado filhos estratégicos.

– E mais. – Ricardo continuou. – Ela tentava sair e você ficou dando tapa na bunda da menina e tentando encaixar nela.

– Você estava onde quando tudo isso aconteceu, Ricardo?

– Ele estava enchendo as meninas de uísque. – Joseph se antecipou. – E agora dando uma de santo.

– Eu não estuprei ninguém, ela pediu o uísque, pediu pra ir pro quarto comigo, ela até me passou o zap dela, eu posso provar.

– Eu também não estuprei, não sou nenhum estuprador, uma mulher sem calcinha senta no meu colo, é lógico que ela quer, é quase um pedido. – Os dois riram discretamente da situação enquanto Antônio fazia mais anotações. Alguns relatos a mais, algumas discussões de família e outros entreveros menos importante e toda a estratégia de defesa parecia estar arquitetada.

– Eu agradeço muito. – Doutor Sales apertava a mão de Antônio. – Eu terei uma dívida impagável com você se você conseguir tirar esses dois imbecis dessa.

– Vou fazer meu trabalho, Doutor.

Dr. Sales e os filhos saíram do escritório ainda debatendo sobre o que eles supostamente não haviam feito. Aquela reunião durou mais que o imaginado e já estava quase na hora do almoço.

– Avisa, por favor, aos rapazes que hoje eu vou almoçar em casa. – Antônio passou pela secretária com alguma rapidez, talvez o cardápio fosse digno dessa pressa.

Fez o caminho de volta com uma grade afobação. Já sem muito o trânsito, a cidade estava se preparando para corpos esfomeados lotando restaurantes e lanchonetes. Chegou em casa, para total surpresa da sua mulher.

– A Scheilinha tá dormindo. – Ela sussurrou pedindo que ele não fizesse mais barulho do que havia feito. Antônio deu um beijo silencioso nela e foi até a porta do quarto para ficar contemplando sua filha no berço. Olhou por alguns minutos aquele ser imóvel, gracioso, cheio de pureza e inocência, ainda protegido de um mundo pronto para apertar todos os botões existentes de implosão. Se o homem é o lobo do homem, imagina o que ele é da mulher? Mas naquele berço, naquela bolha, nada poderia atingi-la. Dentro do peito de Antônio, veio um arrependimento de não ter acordado para dar a mamadeira e colocá-la para arrotar. Algumas fases passam tão rápido, mas só por que elas nem imaginam qual é o “boss” que vem a seguir.

– Ainda tem o peixe de ontem? – Ele abraçou a mulher ao senti-la se aproximar.

– Tem, mas eu fiz comida fresquinha hoje, tá tudo ainda no fogão, você vai querer comer coisa de ontem mesmo?

– É por que tava muito bom, eu posso comer a de hoje na janta.

– Você e suas manias, Amor, eu não vou te obrigar a almoçar o que eu quero. – Ela se desvencilhou do abraço. – Vem, vou botar a mesa, vamos aproveitar enquanto ela dorme.

Antônio e sua esposa foram para a sala de jantar e nem ouviram um pequeno soluço saindo de sua filha. Mas, calma, não era nada demais.

1 comentário Adicione o seu

  1. Ana Valeria disse:

    Sem palavras… Desejo muito que os seus textos cheguem a muitas e muitas pessoas. A gente precisa ouvir e refletir mais sobre as letras, as histórias e as vidas por trás do que é cantado.

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