SERGIO MORO, O FLAUTISTA DE -BRASILIN – CONTOS CRÔNICOS #12

em
Junção das charges do artista Elvis e do artista Iotti.
Texto, Locução e Edição de Anderson Shon

Talvez essa história se pareça com o Flautista de Hamelin, mas é só coincidência. Ou talvez ela se pareça com o cenário da política brasileira, mas é só coincidência. Quiça, pareça com as duas juntas…mas é só coincidência.

Há pouco, pouquíssimo tempo, na cidade de Brasilin, aconteceu algo muito curioso: Uma manhã, quando seus gordos e satisfeitos habitantes saíram de suas casas, encontraram as ruas invadidas por pássaros vermelhos que iam sobrevoando todo o local. Pousavam nas universidades, nos aeroportos, nos shoppings, nos centros culturais, para onde olhassem, sempre havia algum pássaro vermelho tomando o espaço que antes só era frequentado por alguns cidadãos de Brasilin. Ninguém conseguia aceitar a causa de tal invasão e, o que era pior, ninguém sabia o que fazer para acabar com tão inquietante praga. Por mais que tentassem exterminá-los, ou ao menos afugentá-los, parecia ao contrário, que mais e mais pássaros apareciam na cidade. Tal era a quantidade de pássaros que, dia após dia, começaram a ouvir os cantos se sobrepujando aos mugidos que vinham do gado, que antes tomava conta de toda Brasilin. Ante a gravidade da situação, os homens importantes da cidade, vendo perigar suas riquezas pela voracidade dos rubro pássaros, convocaram o conselho e disseram: “Daremos uma vaga no STF para quem nos livrar dos pássaros.”

Pouco depois se apresentou a eles um flautista taciturno, alto, desengonçado e com uma dicção um pouco estranha e lhes disse: “A recompensa será minha”. Dito isso, começou a andar pelas ruas e, enquanto passeava, tocava com sua flauta uma melodia falaciosa que soava como música para alguns ouvidos. Os pássaros, incapazes, iam saindo de seus ninhos e seguiam hipnotizados os passos do flautista que tocava incessantemente. Assim, ia caminhando e tocando, levou-os a um lugar muito distante, tanto que nem sequer se poderia ver as muralhas da cidade. Naquele lugar, havia uma cachoeira com água suja e barrenta, onde os pássaros foram obrigados a ir e, um a um, todos morreram afogados e soterrados por aquela lama.

Os brasilineses, ao se verem livres das vorazes tropas de pássaros, respiraram aliviados. E, tranquilos e satisfeitos, voltaram aos seus prósperos negócios e tão contente estavam que organizaram uma grande festa para celebrar o final feliz, comendo excelentes manjares e dançando até altas horas da noite. Na manhã seguinte, o flautista se apresentou ante o Conselho e reclamou aos importantes da cidade a vaga no STF prometida como recompensa. Porém esses, liberados de seu problema e cegos por sua avareza, reclamaram: “Saia de nossa cidade! Ou acaso acreditas que te pagaremos tanto por tão pouca coisa como tocar a flauta?”.

Dito isso, os honrados homens do Conselho de Brasilin deram-lhe as costas dando grandes gargalhadas. Furioso pela avareza e ingratidão dos brasilineses, o flautista, da mesma forma que fizera no dia anterior, tocou uma doce melodia uma e outra vez, insistentemente. Porém, esta vez não eram os pássaros que o seguiam, e sim o gado da cidade que, arrebatados por aquele som maravilhoso, iam atrás dos passos do estranho músico. De coro ensaiado e sorridentes, formavam uma grande fileira, surda aos pedidos e gritos de seus antigos ídolos que, em vão, entre soluços de desespero, tentavam impedir que seguissem o flautista.

Nada conseguiram e o flautista os levou longe, muito longe, tão longe que ninguém poderia supor onde, e o gado, como os pássaros, nunca mais voltaram. Na cidade, nada ficou, além da lembrança amarga e a sensação de que algo que começa errado tende a dar errado. Alguns contavam histórias do antigo flautista, sobre seu primeiro encontro, sobre como ele foi inicialmente encantador, com prantos presos e vozes embargadas. Foi isso que se sucedeu há poucos, poucos anos, na deserta e vazia cidade de Brasilin, onde, por mais que se procure, nunca se encontra nem um pássaro, nem um gado.

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