Cantando o conto #007 – Já Sei Namorar

Querido Diário,

Eu acabei de chegar em casa, quer dizer, não cheguei agora, agora, cheguei quando entrei pela porta esbaforida e minha mãe me olhou como se estivesse vendo um homem com uma máscara e um machado na mão. Mas antes de explicar isso, preciso dizer que hoje foi a festa a fantasia do Arnaldo e, apesar da mamãe ter me dito inicialmente que eu não ia, eu fui. A Jéssica estava fantasiada de amazona, o Dado de lutador de karatê, o Sérgio de Saci, o Marcelo de pacman, a Marisa de alguma princesa que não tive interesse de identificar e o Carlos…ahhhhhh, o Carlos, ele estava lindo, sua fantasia de capoeirista deixava seus braços de fora, era mais fácil esbarrar neles quando não estavam cobertos com aquele surrado casaco xadrez. Eu estava vestida de tribal, com um osso na cabeça e as roupas milimetricamente rasgadas por alguma costureira que conseguiu ganhar dinheiro juntando pedaços de pano e dando a eles algum jeito. Finalmente o ano está acabando, me aproximar do ensino médio me aflige silenciosamente; mas o meu maior carma era esse maldito BV. Alguma das minhas amigas já beijaram, outras já fizeram até algo mais, mas eu nem sequer tinha coragem de tocar os braços do Carlos. Mas calma, diário, deixa eu voltar a te contar da festa. A música era alta e quase ninguém se escutava, foi quando chegou até a mim o recado: “O Carlos quer ficar com você” Não sei se era o osso na cabeça ou aquele tacape nas mãos, mas havia algo irresistível em mim naquela noite. Fui aconselhada a deixá-lo esperando um pouco, mas não consegui. Meu coração batia tão forte que poderiam dizer que estava fantasiada de uma percussão. Encontrei ele do lado de fora da festa, encostado numa árvore e com a mão no bolso. Não lembro quais foram as nossas palavras, só me recordo dele me puxando pela cintura e me dando um beijão. Fiquei tão feliz, mas tão feliz, que saí correndo dali com a missão de contar a minha mãe de que havia dado meu sonhado primeiro beijo. O problema foi deixar o pobre do Carlos lá, já que minha mãe ficou assustada ao me ver chegar daquele jeito e furiosa por eu ter voltado sozinha. Mas ela pediu uma pizza de quatro queijos, que na verdade são três, já que a mussarela sempre está presente nas pizzas, não pode contar como um sabor específico. Foi um dia e tanto. Agora preciso dormir, Diário, até amanhã.

Querido Diário,

Encontrei com o Carlos e ficamos conversando bastante. Ele ficava falando de séries da Netflix e eu achei isso um saco. Perdi a educação física toda com ele me contando sobre uma série que pessoas mascaradas roubam o dinheiro de alguém, nem tava prestando atenção, não sou do tipo que fica abraçada no cobertor chorando pelos personagens que estão numa tela, só queria que ele me puxasse e me beijasse de novo. Isso não aconteceu, acho até que aconteceria, se o professor não me chamasse para a aula. Apesar de ser a melhor jogadora do time, nós perdemos, não da pra ganhar quando a goleira pergunta pra você se ela realmente pode pegar a bola com a mão. Carlos me procurou no intervalo, mas eu já tinha cansado, queria ficar ouvindo minha amigas falarem do resto da festa de sexta. Ele ficou me olhando de longe e acenou pra mim, eu pedi para ele esperar e quando bateu o sinal fui direto pra sala. Que nada, acho que esse negócio de ser de uma pessoa só não combina comigo, né, Diário? Já você não liga de ser só meu, né? Amanhã eu volto… tchau.

Querido Diário…

Que mundo ingrato? Lembra da Marisa que estava fantasiada de uma princesa que eu não dei atenção? Pois então, o Carlos deu. Eles estavam de conversinha hoje e quando eu o chamei, ele me mandou esperar e foi pra sala quando o sinal bateu. Que idiota! Minhas amigas disseram que os homens são assim mesmo, mas não achei que ele pisaria no fato deu ter lhe entregado meu primeiro beijo. O problema é que meu peito dói com essa distância e com a vontade de beijá-lo novamente. Assisti as últimas aulas com o choro preso e tendo que explicar aos professores que não havia acontecido nada demais. Que mundo injusto. Por que eles preferem as princesas do que as guerreiras? Desculpa, diário, hoje não vamos conversar muito, meu amigo será o travesseiro, o cobertor, os lenços de papel e o tempo, minha mãe disse que ele é o melhor remédio, talvez eu queira uma dose dele pra mim.

Querido Diário…

Resolvi ser do mundo, nem sei exatamente o que isso significa, mas uma professora falou em tom forte e eu concordo com ela. A verdade, é que agora eu quero muitas coisas e o Carlos não é mais uma delas. Quero viajar de avião, quero um pastel de frango com catupiri, quero saber quanto eu tirei na prova final de história, quero que meu gato consiga cuspir a meia da mamãe. Minha cabeça tá tão cheia de desejos, e isso é bom, pelo menos por agora, bem melhor do que qualquer beijo.

1 comentário Adicione o seu

  1. Maria Julia disse:

    Como sempre, maravilhoso! E tratou bem a essência da canção junto com a adolescência… parabéns, Shon!

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