CATANDO O CONTO #012 – SOLITUDE

Texto, Locução e Edição de Anderson Shon

Dia 8 de Maio Fábio e Marta comemoravam suas bodas de Palha, talvez por isso tudo parecia tão incandescente, tão perdido, tão consumível. A verdade é que cheguei aqui junto com eles, no primeiro dia, onde a alegria era o maior combustível. O bolo que comemorava o dia de hoje, contrastava bastante com os anos em que a toalha de mesa era trocada, em que alguns salgadinhos e docinhos acompanhavam a comemoração e em que havia um cartaz com letras coloridas indicando a respectiva boda. Hoje é um bolo de padaria, sem cobertura, sem recheio, uma folha de papel impressa em fonte ARIAL, tamanho vinte e quatro e o suco que tiver na geladeira ao lado, para não correr o risco de alguém se engasgar.

Os dois se sentaram na mesa para o jantar, não era o jantar especial de bodas de qualquer coisa, era só o jantar.

– Como foi no trabalho? – Marta encheu o copo de suco e acenou com o queixo perguntando se seu marido iria querer.

– Nada demais, os problemas de sempre e o seu? – Ele recusou balançando a mão esquerda sem sequer soltar a faca.

– É, alguns clientes novos, mas nenhum fechou contrato.

O principal tempero daquela janta era a solidão. A junção de dois corpos acompanhados de uma total solitude e num marasmo conveniente que muitos chamam de casamento. Eles colocaram os pratos de lado e cortaram um pedaço do bolo comemorando de forma tímida mais um ano de união. Só cortaram uma fatia e dividiram ao meio. Fábio olhou aquilo como mais uma das milhões de tentativas de sua mulher de se afastar de alimentos doces. Marta olhou aquilo como um sinal de que Fábio, mais uma vez, não estava agradado com algo que ela comprara.

Os dois foram para o sofá, não tinham sinal de TV aberta ou fechada, fazendo com que as noites fossem grandes reprises de séries já assistidas.

– Sobre os contratos. – Marta puxou os pés para cima do sofá. – Todo mundo tá com medo de fazer qualquer aposta, de arriscar, sabe? O banco tá dando as melhores condições, mas ninguém parece muito satisfeito, sei lá, deve ser o medo mesmo, todo nós estamos… Fábio? Fábio? – Ela levantou do sofá, veio em minha direção, me apagou e foi para o quarto, lá também tinha uma TV.

A luz do sol me deixava enxergar que a rotina recomeçara. Os dois corpos entraram num balé evasivo onde sempre estavam ocupando o mesmo cômodo, mas nunca o mesmo espaço. Um beijo rápido selou o inicio do dia, acho que aquilo ativava alguma memória que funcionava como uma pilha que já tinha sido trocada de lado na vã esperança de que alguma energia ainda existisse. Cada um tinha o seu carro, o seu trabalho, os seus problemas, a única interseção era a solidão. O vazio sólido pregava quadros nas paredes e acendia, cotidianamente, luzes que mostravam como os reflexos no espelho estavam ao contrário.

Fábio pegou a chave do carro de Marta, a dele já estava no bolso. Viu que ela havia parado em frente a mim, como se pensasse em ligar essa velha luminária, mesmo sabendo que não teria ninguém em casa.

– Marta? – Ele se aproximou limpando algum fiapo da camisa. – Tá tudo bem? – Ela me encarou como se procurasse alguma resposta, algo que pudesse se agarrar.

– Sim, tá tudo bem. – Passou a mão no cabelo, colocando-o atrás da orelha e pegou as chaves na mão do seu marido, agradeceu. Não vi qual dos dois saiu por último, ou bateu a porta, ou passou a chave na fechadura. O último relance visto foi o mesmo que vocês viram, o mesmo que eles viram. Foi somente o mesmo nada que todos conseguem ver.

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