IDENTIDADE – CONTOS CRÔNICOS #13

em

– Deu R$6,12, senhor?

– R$ 6,13?

– Não, não, R$6,12, seis reais e doze centavos. – Falou a menina mostrando um sorriso que se opunha a sua paciência habitual.

– Está aqui. – O rapaz procurava algumas moedas que complementassem o valor. – Pode ficar com o troco. – Brincou. A atendente não lhe deu muita atenção, já estava quase o expulsando para que pudesse atender o próximo da fila. Ele foi pegando a alça do saco, até que algo chamou a sua atenção.

– Essa identidade – Ele apontou para uma prateleira atrás da moça que o atendera. -, eu conheço o rapaz da foto.

– Ele esqueceu aqui ontem. – A moça pegou na prateleira. – Estava todo feliz por ter um dia de descanso, algo assim.

– Estranho, não tem nome, nem sabia que dava pra fazer identidade assim.

– É… – Ela já estava olhando para o próximo cliente. – estranho mesmo.

– Eu posso entregar a ele, se isso for ajudar. – A moça não parecia se importar muito com qualquer coisa que não fosse preços de produtos ou filas grandes e entregou a identidade na mão do rapaz. O homem pegou-a e foi até em casa tentando se lembrar de onde conhecia aquele rosto.

– Dona Madalena. – Ele abordou uma senhora cheia de sacos na mão. – Segurando todo esse peso, deixa eu ajudar a senhora e a sua coluna.

– Eu agradeço, meu filho. – A senhora sorriu com doçura. – Deixe lá em frente a minha porta, eu vou aqui no meu passo. – Ela entregou os sacos ao homem. Aquele ritual acontecia bastante, ela sempre ia a igreja aos domingos e, na volta, passava na feira para garantir uma semana bem farta.

– Encontrei a dona Madalena no caminho. – O homem entrou em casa e colocou a chave em cima da mesa. – Ela estava mais uma vez segurando um peso gigante e sem ninguém da família pra ajudar.

– Ela falou algo sobre a folha pra diminuir as dores? – A mulher dele se aproximou acariciando a enorme barriga.

– Dessa vez não, talvez tenha esquecido. – A palavra “esquecido” o fez lembrar da identidade. Ele tirou-a do bolso e colocou ao lado das chaves.

– Amor, vê se esse homem, não é familiar?

– Hum… – A mulher pegou a identidade com as mãos. – Cadê o nome? – Ela também estranhou. – Parece com o pai do menino simpático que vive acalmando as outras crianças.

– Acalmar essas crianças daqui? Só um milagre. – Os dois riram e voltaram suas atenções para a identidade. – Será que é ele? Sem nome fica difícil mesmo. – O homem analisava a imagem observando cada detalhe do rosto. – Você tá falando do Sr. Augusto, né? O dono daquela quintandinha da praça?

– Ele mesmo. – A mulher pegou os sapatos que o homem já havia tirado dos pés.

– Não, não. – Ele pegou da mão dela. – Vou logo devolver, ele pode estar desesperado atrás dela.

– Traz uma jaca pra mim?

– Uma jaca? – Apesar da manhã ainda não ter se despedido, achar uma jaca na feira a uma hora dessas era uma aventura e tanto. – Eu vou lá rapidinho, só pra entregar isso mesmo, nem quero ir de carro.

– Por favor, eu tô com desejo, por favor.

– Ok, ok – Ele pegou as chaves do carro e foi em direção a porta. -, eu não quero correr o risco do meu filho nascer com cara de jaca. – Ao sair, deu de cara com Peu, o faxineiro do prédio. Ele estava varrendo bem na frente da sua porta, ou fazendo algo que não podia, pois quando percebeu a presença do homem tomou o susto que o fez cair.

– Está fazendo o que aí no chão, Peu? – O rapaz falou com a identidade na mão.

– Nada, senhor, só escorreguei mesmo. – Ele respondeu meio sem graça se apoiando na vassoura para levantar.

– Vem cá, você já viu esse homem?

– Esse homem. – Peu procurou no cérebro aquela figura. – Não, senhor.

– Responde direito, você nem prestou atenção nos detalhes.

– Olhei sim, não o conheço.

– Tem certeza? – Aquele questionário estava ficando desagradável.

– Tenho certeza. – O rapaz olhou desconfiado, mas se viu incapaz de tirar alguma resposta daquele pobre trabalhador. Ele entrou no carro e partiu em direção a feira com as suas duas metas em mente.

O homem perguntou pelo Sr. Augusto e foi indicado para uma bonita barraca de maçãs. Cheiro agradável, pintura bem feita e um número incontável de plantas decorando ao redor. Talvez por isso uma grande fila estava ali.

– Bom dia. – Olhos recriminaram o rapaz por acharem que ele estava furando a fila. – O Sr. Augusto está?

– Augusto? – Um menino enchia um saco com maçãs para dar a uma mulher alta, loira e, pelo visto, pouco paciente.

– Você tem que esperar a sua vez. – Ela falou com a voz apressada. – É cada um que aparece. – Pegou o saco e saiu sem sequer ouvir a explicação do rapaz.

– Próóóóximo! – Gritou o menino. – Augusto? Não conheço.

– É esse da foto. – Ele apontou pra identidade.

– Não conheço, moço. – Um casal de mãos dadas se aproximou. – O que vocês querem?

– Uma maçã, por favor. – Disse a mulher.

– Só uma? – O menino sorriu. Eles fizeram um aceno com a cabeça confirmando. – É pra já. – Com uma maestria invejável, o garoto pegou a maçã, colocou no saco, pegou o dinheiro, deu o troco e entregou tudo para o casal.

– Obrigado. – Eles saíram com um enorme sorriso no rosto.

– Eu não conheço nenhum Sr. Augusto, mas na próxima esquina tem uma delegacia, lá você pode conseguir alguma informação. – O homem agradeceu, aquilo já era uma mínima pista. Ele parou para comprar a tal jaca, mas percebeu que aquilo deixaria seu carro com um cheio desagradável e preferiu se convencer de que uma mentirinha para a esposa não faria mal algum.

Apesar de ser domingo, o local estava lotado, talvez o crime não tenha dia de folga. Havia várias pessoas na frente da delegacia, alguma manifestação estava acontecendo. O homem furou aquela multidão, entrou e procurou o policial que parecia estar menos ocupado.

– Um horror… – O policial falava ao telefone. – Dois irmãos, eram irmãos mesmo, um matou o outro com um golpe violente – Ele fez um sinal com a mão pedindo para o homem esperar. -, o sobrevivente ficou com um corte na testa, algo bem profundo, acho que até mexeu com a sua sanidade, pois ele não para de culpar o pai, confessou o crime, mas está culpando o pai, acho que ainda nem percebeu a gravidade da situação. – Aquela conversa durou bastante até que outro policial entrou dizendo que seria necessário um reforço na porta, pois a multidão estava muito exaltada.

– Seja breve. – Ele desligou o telefone e foi até o rapaz que o esperava.

– Você conhece esse homem? – Ele mostrou a identidade.

– Aqui passam milhares de pessoas por dia, você tem mais alguma informação?

– O nome dele é Augusto, Sr. Augusto. – O policial estranhou a identidade não constar o nome do dono.

– O único Augusto que eu conheço é o da lanchonete que sede o nosso lanche.

– Você pode me dizer onde é. – Apesar de apressado, o policial foi atencioso e indicou onde o tal Sr. Augusto poderia ser encontrado.

O homem pegou o celular para avisar a esposa que chegaria mais tarde do que o esperado, mas não havia percebido que sua bateria tinha descarregado e, pra piorar, uma forte chuva caia, sendo ouvida através das pancadas que as gotas davam no teto da delegacia.

Ele saiu de lá correndo para se proteger da chuva. Percebeu que, diferente de quando entrou, a rua estava completamente vazia, nenhum pé podia ser visto, nenhuma pessoa pra gritar qualquer canção de protesto, só alguns cachorros e gatos procurando abrigo. A lanchonete indicada pelo policial era um pouco distante, mais ou menos uma hora de carro. Ele já estava com fome, então pisou logo no acelerador, pois seu destino resolveria dois problemas com uma viagem só.

O local era rústico. Na parede havia uma tábua indicando uma dezena de regras que deveriam ser respeitadas naquele ambiente. As cadeiras e mesas não eram das melhores, o que por algum momento pareceu bom, pois ele não estava disposto a gastar muito dinheiro.

– Por favor – O garçom se aproximou. -, você me traz torradas com pasta de atum e um suco de uva. – Era o prato do dia, assim indicava o cardápio.

– Mas algo, senhor?

– Sim – Ele preferiu pedir a comida primeiro para garantir alguma simpatia do garçom. – Sr. Augusto, você conhece…

– Rápido, Wesley, a mesa 33 está esperando. – Um homem barbudo gritava apontando para todos os lados possíveis.

– Eu já volto, senhor.

– Não, é rápido, garçom… – A incógnita ainda estava no ar.

A comida não demorou de chegar, ele estava intrigado analisando, novamente, aquela identidade.

– Com licença. – O garçom estava colocando o pedido na mesa. – O senhor é parente do Sr. Augusto?

– Isso que eu ia te perguntar, então você conhece o Sr. Augusto? Conhece? – A ansiedade injetava nos olhos do homem um rubor quase fanático.

– Não conheço muito…

– Conhece ou não? – O homem puxou o garçom pela camisa fazendo o derramar o suco.

– Olha o que você fez! Olha o que você fez!

– Por favor, me responda, eu preciso dessa resposta!

– Ele esteve aqui agora pouco, mas já foi, disse que precisava construir algo, foi na direção do centro… – O homem nem o ouviu terminar, guardou a identidade no bolso e foi correndo em direção ao carro. – Ei! Ei! você precisa pagar, você tem que pagar por isso!!! – Foi ouvido o som do atrito entre o pneu e o asfalto e o um raio veloz passou na frente da lanchonete. – Ainda bem que é o prato que nós mais temos na casa. – Disse o garçom enquanto tirava uma toalha do bolso pra limpar aquela bagunça.

A estrada ia ficando ruim a medida que ele ia se afastando da lanchonete. Era uma reta, não teria como errar, mas algo parecia fora do normal. Uma cidade completamente destruída era o cenário de onde ele acabara de entrar. Casas no chão, poeira por todo lado, uma devastação total. Andar de carro começou a ser uma aventura, fazendo-o estacionar e procurar, a pé, por alguém que pudesse dar alguma boa informação. Ele andou muito, muito mesmo, até que viu um prédio intacto, o único, e em uma janela havia uma mulher estendendo uma calcinha vermelha em um varal, parecia o único ser vivo existente ali.

– Ei!!!!! – O homem saiu correndo e gritando. – Eeeeeeiiiiiii!!!!! – A mulher olhou em sua direção, não havia nada em seus olhos, somente um vazio cortante e uma expressão de dor e agonia. Apesar de assustado, o homem continuou:

– Você conhece o Sr. Augusto? Esse daqui. – Era óbvio que ela não conseguia enxergar.

– Sr. Augusto me salvou e ele salvará a todos nós. – A mulher apontava para o final da rua. Ele não entendeu o que aquilo significava, mas saiu correndo na direção indicada. O rastro de destruição foi ficando mais evidente, porém alguma vida natural pode ser vista ao longo da sua corrida. Ele viu uma mosca engolindo um sapo, dois lobos disputando um filhote entre os dentes, o casulo seco de uma borboleta gerando uma nova vida e outras coisas tantas que ele não deu atenção, estava cego pelo seu objetivo.

O caminho ia se afunilando, já havia passado tanta vida que a lua estava presente no céu. Correu mais do que imaginava, mais do que conseguia. Seu tênis estava esfolado e somente o pé, sangrando com a pedras pontudas do caminho, era o seu contato com o solo. De repente, ele sai da cidade e se vê no meio de uma multidão. Tentou parar para raciocinar e ver o que era aquilo, mas foi sendo empurrado pelas milhares de pessoas que ali estavam. Eles tinham o mesmo olhar da senhora e repetiam um mantra inaudível.

– Com licença, senhor, você sabe onde está esse homem? – Ele mostrou a identidade para o rapaz, mas foi surpreendido, pois o homem carregava uma identidade igual. Ele perguntou a mesma coisa para uma senhorinha ao seu lado, só que ela também tinha a identidade nas mãos. Todos ali tinham e andavam sem rumo falando coisas incompreensíveis. O rapaz imaginou que aquele seria o caminho para chegar no homem que nunca havia conhecido. Os passos ritmados fizeram ele seguir a multidão, o que não pareceu ruim, pois estava sedento por alguma resposta, acompanhá-los, talvez, levasse ele para a direção em que tudo pudesse ser resolvido…talvez.

– Senhor Augusto, o senhor não precisa mostrar a identidade para comprar bebida, nós sabemos que o senhor não é mais um moço.

– Mais eu faço questão. – Augusto riu e colocou a identidade em cima do balcão.

– Pronto, deu R$10,14

O valor foi pago. Augusto pegou as compras e foi embora.

– Moça – A jovem, atendida depois dele, tirou seus fones de ouvido, para não falar em um tom de voz desnecessariamente alto, e apontou para o balcão. -, o rapaz esqueceu a identidade aqui. – Ela fixou os olhos na foto. – E eu acho que conheço aquele senhor de algum lugar, de algum lugar.

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