CATANDO O CONTO #013 – SAUDADE SERTANEJA

Texto, Locução e Edição de Anderson Shon

Um sol escaldante sorria para aquela turma carregando uma quantidade de pratos e bebidas que mais fazia daquele cenário um treinamento de um buffet do que uma universidade pública. O último dia de aula era uma felicidade para todos, alunos, professores, coordenadores, serviços gerais, até uma galera que fica com o comércio ao redor da universidade se sentia feliz, pois terão a oportunidade de desvendar outros locais, fidelizar novos clientes. Ali estavam Lívia, Mauro e Mamá, três estudantes de pedagogia celebrando a felicidade de terem alcançado a metade do curso. Na verdade, a felicidade eram os próximos dois meses de férias, podendo descansar, nenhum estagiava, mas já havia um discurso de educação libertadora, já tinham algumas palavras paulo freirianas nas mangas e o universo se modificava a cada aula em que os cases de sucesso mostravam como uma pessoa pode salvar vidas através do ensino. O plano era montar uma escola juntos, o nome já estava até escolhido; “Educandário das Mentes Livres”. Como, normalmente, as escolas ganham uma redução natural dos nomes, ser chamado só de Mentes Livres parecia uma boa ideia, a menos que a escola protagonizasse algum escândalo envolvendo mentiras, calúnias, aí o ótimo nome serviria como um tiro no pé. Porém, nossa história não é sobre nenhum deles.

Os três entraram na sala, era a última aula do dia, o professor estava sentado na mesa e olhou com espanto aquele enorme bolo entrando.

– Acho que erraram. – Ele se levantou para dar espaço. – a aula de gastronomia é no outro pavilhão.

– Se em pedagogia a comemoração vai ser desse nível. – Um rapaz de jaqueta azul se levantou para ver as guloseimas mais de perto. – Imagine lá. Podemos comer?

– Calma, calma, hoje é o último dia de aula e não o último dia da vida. – Os alunos estavam em um clima tão simpático que até deram risadas da piada do professor. Cada um foi se ajeitando nos seus lugares. Alguns ainda não tinham pagado o valor acertado, fizeram naquela hora mesmo, menos Domingos, ele estava sentado na lateral esquerda da sala, viu alguns olhares encontrarem o dele, mas ninguém teve coragem de cobrá-lo.

– Sabe o que tem no último dia de aula? – O professor andava entre os corredores. – Aula, se não só seria o último dia. – Dessa vez poucos riram, alguns já abriam as mochilas para pegar a atividade solicitada pelo professor. – Então, vamos fazer a leitura das cartas, pedi para que vocês se imaginassem como um aluno ou aluna saindo do fundamental I, o que você acha que ele mais sentiria saudade. – O professor ainda reexplicou que essa atividade faria com que os futuros pedagogos olhassem melhor esse processo de transição, época bem complicada na fase escolar.

A sala não era grande e alguns haviam faltado, tinham feito do penúltimo dia de aula, o último dia de aula. Mauro foi o primeiro, seguido de Luís, tinham dois na sala, um Luís com acento e S e o outro sem acento e Z, os dois leram também. Lívia havia esquecido em casa, assim ela disse, como era um trabalho sem pontuação para o semestre, os alunos não fizeram com tanto empenho, deixando o professor um pouco chateado, mas era o último dia de aula, esquentar a cabeça não era inteligente.

– Domingos, você pode ler o seu pra turma? – Domingos se levantou com o caderno nas mãos. Olhou pra folha, pro professor e pra folha de novo.

– Pode ler. – O professor sentou-se na mesa.

– Precisa ser de pé, né?

– Se você não estiver a vontade, pode sentar. – Domingos preferia estar sentado, nem sabia muito bem por quê. Ajeitou os óculos e pegou uma caneta, não que fosse escrever, mas é onde poderia materializar sua ansiedade, dando voltas com ela entre os dedos.

– Mainha… – Ele começou. – eu estou com saudade. Estou com saudade de conversar com a terra marrom que ia dando conselhos sobre atalhos e terminava grudada nas minhas canelas e lá fazia sua colônia, quase sendo uma só com a minha pele. Sinto falta da voinha e de como em todas as tardes ela já se preparava para apertar os olhos encarando o sol quente no rosto, não queria sair daquela cadeira, a vida era muito maior do que fugir. Não havia sombra que parecesse mais atraente do que a frente da casa, os acenos contínuos, a vida em cada raio solar. Aqui mainha, as pessoas escolhem o dia em que dão bom dia. Ninguém passa um dia sequer sem falar algo que não me deixe aperreado. E por sinal, espero que entenda todas essas palavras aqui, me fizeram esquecer algumas daí, sempre quando tenho vontade de dizer um”muriçoca”, “galego”, “arribar”, “cangote”, sempre que quero falar pra me lembrar daí, pego e anoto num caderninho, pois cansei de gente achando que eu sou tabacudo só por não ser igual a eles. Mainha, eles acham que a vida ao som de buzinas, de palavras ditas de forma apressadas, de pessoas se esbarrando ou sonhando com o dia que vão se esbarrar, eles acham que isso é a vida, eu só consigo lamentar. Hoje é o dia da comemoração do que não se devia comemorar. Batalhei tanto pra estar aqui e os que estão, não querem estar. Eles são uma contradição, mainha, eu realmente não consigo entender, estudam educação, mas não se importam se eu não abro a boca, um não conhece a história do outro. Queriam dinheiro para comprar um bolo, mal sabendo que voinha me ensinou o melhor bolo do mundo. Por sinal, a comida é horrível, nada supera o torresminho da senhora. Estou com saudade, mainha, aqui não há poeira atrapalhando de se enxergar o horizonte, mas ainda assim ninguém o vê. E mesmo que a senhora me pergunte o motivo, eu não saberei responder. Parece que existe um cabra gigante com um açoite na mão, não deixando que ninguém saia desse precipício, mainha. Essa carta, mainha, nunca vai chegar na senhora, num quero saber que a senhora está aperreada por causa de mim. Eu estou lutando, ninguém que nasce empurrando caminhão de feira cai com facilidade. Mas estou com saudade.

Os alunos ouviram, sentiram, internalizaram aquelas palavras e olharam para o professor, alguns esperavam uma repreensão, afinal, ele havia saído do intuito da atividade. O professor nada falou e aquele silêncio, o incomodo silêncio naquela sala era a maior lição para se aprender. Aos poucos, todos perceberam que aquele não era o último dia de aula, era o primeiro.

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