Hanna-Barbera, Racismo e os frutos de uma árvore chamada “contexto” – Black Nerd #014

William Hanna & Joseph Barbera | Discografia | Discogs
Respectivamente, William Hanna e Joseph Barbera.

Eu sei que você já assistiu algum desenho do Hanna-Barbera e, se você cresceu na década de 90, até achava que eles eram feitos por uma mulher, por conta do nome. Na verdade, Hanna-Barbera vem de William Hanna e Joseph Barbera, a empresa responsável por diversos desenhos que são atemporais. Vou citar 10 só pra você ter certeza que já viu algum deles: Scooby-Doo, Corrida Maluca, Pegue o Pombo, Flintstones, Jetsons, Zé Colmeia, Pepe Legal, Capitão Caverna, Jonny Quest e o meu preferido, Os Impossíveis. Há muito em comum entre eles e não tô falando só do fato de cobrirem o pescoço com algum lenço, colar, coleira, gravata e etc. Nenhum deles é negro e, indiretamente, influenciaram toda uma geração a reproduzir um racismo sem nem perceber. Porém, isso deve ser rechaçado ou é fruto de um contexto?

O estúdio foi criado na década de 50, década marcante para que figuras como Martin Luther King – que só iria aparecer na década seguinte – e Malcon X – atuante desde o final de 50 – acumulassem “ódio” o suficiente para resolverem agir. Um dos fatos, foi a manifestação contra a entrada do primeiro estudante negro na universidade de Alabama. Tanto Hanna quanto Joseph fizeram faculdade e a empatia não é algo muito presente nessa disputa racial estadunidense. Nas forças armadas, negros tinham quartéis e locais de treinamento separados e não podiam subir de patente. O que estou querendo dizer é que ainda era uma década em que a segregação estava no cotidiano social dos E.U.A. e pouco se fazia para mudar aquele cenário. Esperar que essa atitude viesse de dois homens brancos fundando um estúdio de desenhos animados era algo um tanto quanto utópico. As exceções são tão exceções – Um personagem negro no Laboratório Submarino, outro na Força Jovem, a versão animada de The Gary Colleman Show (no Brasil conhecido pela série Arnold), uma das meninas do Capitão Caverna… – que só conseguem confirmar a regra.

O problema não está somente nisso. Joseph e Hanna foram responsáveis pela animação Tom Jerry, da década de 40, pela MGM. O desenho já foi censurado pela própria Warner – dona dos direitos do Hanna-Barbera – por seu teor racista. Na remasterização, os episódios, principalmente os que envolvem a empregada Mammy Two Shoes, contém avisos esclarecendo que aquela representação era fruto de um contexto e que ela está errada no presente e já estava errada no passado.

Mammy Two Shoes
Fãs reclamam de censura à coletânea de Tom & Jerry - Jornal O Globo
Tom e Jerry em uma das polêmicas cenas envolvendo racismo.

Mammy é uma mulher negra que não sabe falar corretamente, sua vida parece ser somente varrer e cozinhar, pois nunca foi vista em qualquer outra situação dentro da série, além de representar o que se tinha a alcunha de “ama de leite”, uma ex-escrava que tinha como função cuidar da casa inteira e das crianças mesmo com os patrões estando em casa. Há uma cena também em que Tom quer presentear uma gata e pinta o rosto de Jerry de preto e entrega para a felina, como se ele estivesse dando a ela um escravo. Creio que esse fato já mostra a pouca preocupação dos criadores do Hanna-Barbera em construir obras que dialogassem com as diversas etnias.

Um desenho do Hanna-Barbera que precisa ser citado é o Super Amigos. Baseado na Liga da Justiça, sua formação chegou a ser tão plural que continha um negro (Vulcão Negro), um índio (Chefe Apache), três asiáticos (Samurai e os Super Gêmeos) e duas mulheres (Mulher-Maravilha e Mulher Água). A questão é que essa diversidade entre os personagens heroicos veio somente em 1979 e o desenho foi criado em 1973, tendo somente o núcleo da Liga da Justiça como protagonistas com a adição dos Super Gêmeos. Os Super Amigos não foram criados para dialogar mais com outros públicos, ele foi, inicialmente, uma estratégia de audiência que queria pegar o público dos quadrinhos e colocá-lo para assistir TV.

Superamigos | DC Heroes RPG Wiki | Fandom
Formação dos Super Amigos na sua 4° Fase (1979)

Se o racismo é fruto de um contexto ou não, ele não deixa de ser racismo. O sociólogo Frank Furedi diz que estamos lendo a história ao contrário, já que lemos o passado com a lente do presente. Concordo com ele, só não acho que isso seja ao contrário, uma vez que naquela época isso não pôde ser problematizado. Estamos correndo para entender a raiz do racismo estrutural e evitar que aberrações desse tipo aconteçam hoje em dia. Repito, não deixarei de consumir nada do Hanna-Barbera por conta de tudo que falei, mas meus olhares sempre estarão afiados para entender que racismo, dentro de um contexto, também é racismo. “Pensar o passado para conhecer o presente e idealizar o futuro” (Heródoto). #WakandaForever

1 comentário Adicione o seu

  1. pericles disse:

    que artigo maravilhoso. sou um estudioso de animação, cresci vendo HB e ler seu artigo me deixou muito empolgado pela sua explanação de racismo e das atemporalidades do cinema/tv. Valeu!!! =)

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