CATANDO O CONTO #014 – IMBECIL

Obs.: Esse texto contém cenas fortes de violência, se você não estiver psicologicamente bem, não leia-o.

– Acorda, imbecil.

Jimmy já estava de olho aberto, olhava uma imagem encorajadora no teto do seu quarto enquanto sentia seu primeiro pensamento do dia já ir embora. Levantou tão mecanicamente que ninguém acreditaria que estivera dormindo. Ficou deitado por alguns minutos até a voz de dentro da sua cabeça o relembrá-lo:

– Hoje é o grande dia. – E realmente era. Dia 21, circulado no calendário como o dia da coragem. O banho foi rápido, o café da manhã também, a mãe já havia ido para o trabalho e o pai tinha ido comprar cigarros em uma esquina muito distante. A mochila estava mais pesada que o normal e o jovem Jimmy precisou jogá-la nas costas para poder carregá-la. O Colégio Estadual Conselheiro Santa Madre era gigante e tudo que acontecia lá tomava proporções absurdas para a mente dos adolescentes em total ebulição. Jimmy parou alguns segundos antes de entrar, respirou fundo e…

– Sai da frente, imbecil. – …Foi empurrado por um grupo de jovens que não pareciam apressados o suficiente para agirem daquela forma. Um deles, certa vez, escreveu “imbecil” no quadro uma dezena de vezes. Jimmy, num acesso de raiva, tentou apagar, mas desistiu. E as sobras daquelas palavras ainda sobravam nele. Não mais. Não hoje.

– Hoje é o grande dia, imbecil. – A voz repetia isso enquanto ele via aqueles garotos rindo e seguindo o próprio rumo. Poucos o chamavam de Jimmy, na verdade, seu nome era Jeremias, mas o apelido Imbecil seguiu aquela máxima de que o que gruda é o que você não gosta. O problema foram os quatro anos passados e Jimmy continuava odiando aquela alcunha…e todos continuavam chamando ele assim. Tudo aconteceu na aula de geografia, quando ele estava apresentando sobre a cidade do Texas e teve um branco gigantesco no seu cérebro. Não lembrava sua fala e o professor impaciente soltou a infeliz frase:

– Você vai ficar parado aí parecendo um imbecil? – A turma gargalhou e Jimmy não teve uma reação imediata, fazendo com que a cena ficasse tragicamente hilária e o apelido não desaparecesse. Alunos já chegaram, alunos já saíram, e o tal “Imbecil” não sumia de jeito nenhum. Jimmy não falou mais naquela aula, na aula de ontem, na aula de hoje e, muito provavelmente, na de amanhã. Mas hoje é o grande dia. Jimmy ajeitou o casaco largo e entrou na escola. “Hoje eu falo.” Pensou.

O primeiro a passar por ele foi China, o astro do time de vôlei.

– Seu primeiro alvo, imbecil. – A voz estava certa. Certa vez, num torneio de educação física, China o escolheu para o time (na verdade, estava entre ele e um jovem com problemas no joelho) e intitulou o time como “Os Reis Imbecis”. Toda vez que marcavam ponto, o narrador gritava “ponto para Os Reis Imbecis” e todos riam…riam dele e não com ele. Jimmy sacou um revólver de dentro do casaco e deu um tiro entre o pescoço e a nuca. Nunca havia matado, mas ansiava por esse momento. O sangue explodiu sujando todo o corredor. Alguns olhavam aterrorizados, outros gritavam desesperados. Entre os gritos ele ouviu a voz da Dona Nilda, zeladora da escola que nunca levou suas reclamações adiante.

– Se ela tivesse te levado a sério, nada disso estaria acontecendo, Imbecil. – Jimmy mirou no peito dela e disparou dois tiros certeiros. Ela caiu sem voz, sem vida, sem nada. O alarme do colégio tocou, ele sabia que sair dali com vida seria um feito enorme, mas não queria pensar nisso, ainda havia alguns imbecis pelo caminho. Correu até a sala de rádio procurando um tal de Locutor Dony que terminava todos seus programas com “um beijo do imbecil e tchau”. A porta estava trancada. Não há chave melhor do que um ou dois tiros. E assim foi feito. Dony estava encolhido no chão, chorando e clamando por piedade.

– Eu preciso que você diga sua frase favorita.

– Eu não tenho frase favorita.

– Tem sim. – Jimmy apontou a arma pra ele. – Diga o que você diz sempre que termina seu programa, diga!!!!

– Não me mata… – Dony procurava o nome de Jimmy na cabeça, mas havia acabado de se dar conta de que não sabia uma outra forma de chamar aquele menino. – Por favor, não me mata.

– Se você disser a frase, eu penso no seu caso. – Balbuciando as palavras entre lágrimas e baba, o jovem locutor falou a frase acreditando que o destino o reservaria alguma clemência. Inocente, antes de terminá-la, Jimmy atirou na sua cabeça, fazendo a pressão jogar um de seus olhos na mesa de som que serviu por anos para que todos rissem dele. Jimmy ouviu passos se aproximando, ele não podia perder muito tempo, o principal alvo precisava ser encontrado; o professor Nogueira.

Ele correu em direção a sala do professores, sabia que já estavam o perseguindo e agora era a hora de manter a calma. Recarregou o revólver e se certificou de que tudo ainda estivesse no lugar. Na sua cabeça ainda estavam figuras como Joice, a CDF insuportável, Jonas, o maldito hippie que não tinha nada de paz no coração, a professora Jéssica e seus métodos de tortura fantasiados de sala de aula, mas não daria tempo de se vingar de todos. Às vezes, quando se quer pegar as frutas, é necessário derrubar a árvore, era exatamente isso que Jimmy estava fazendo.

– Professores, acabou o intervalo. – Jimmy utilizou a sua “chave mestra” novamente. Para a sua sorte, o professor Nogueira não faltava nunca. Era daqueles que não se rendia a febres, dores musculares, diarreias, nada o fazia não ir pra escola. Se há um Deus para cada um, o dele tentou mandar recado durante algum tempo, mas se rendeu e preferiu que ele ganhasse o que precisava. – Vocês estão escondidos onde? – A sala dos professores estava vazia, mas em cima da cumprida mesa havia vários copinhos de café. – Não me façam ter que brincar de esconde-esconde com vocês? – Jimmy viu uma lista com algumas assinaturas, parecia a lista de chamada do dia. – Alessandra Leite, Carlos Conceição, Elísio Barros, Isaac Nogueira… professor Nogueira, aqui é o Imbecil, pode aparecer, por favor, antes que eu metralhe vocês aí no banheiro? – Ele apontou a arma, era o único local daquela sala em que todos caberiam. – Melhor, prefiro que fiquem aí.

Jimmy tirou do corpo todo um aparato explosivo que seria capaz de derrubar um prédio. Ajeitou cuidadosamente na porta do banheiro, onde escutou a respiração ofegante daqueles que fizeram seus dias bons, ruins, bons, ruins… Jimmy nunca foi um aluno esplêndido e depois do episódio do “Imbecil” ficou ainda menos especial. Era daqueles alunos facilmente esquecíveis, nunca foi elogiado por ter feito nada grandioso, talvez nunca tivesse feito mesmo, mas seus professores podiam mentir só pra aumentar a sua estima. Seria só mais um, só mais um imbecil no meio de tantos, viveria uma vida amargurado pelas cicatrizes da escola, enquanto os responsáveis contariam essa história com risadas de sitcom ao fundo. Não dessa vez.

– Professores – Ele ergueu os braços segurando firme o detonador. -, eu não sou o futuro da… – De repente, policiais entraram na sala já atirando no menino. Ele recebeu quatro tiros a queima roupa, mas sua sede de vingança conjurou uma força inesperada e ele conseguiu apertar o botão do controle em sua mão. A explosão não formou cogumelos, mas pôde ser vista à distância. Parte da escola cedeu e a outra parte, moralmente condenada, tinha seus dias contados. Os corpos foram encontrados aos poucos, alguns estavam despedaçados, outros sem vida, mas havia um, um corpo em pé, falante e que tornou tudo aquilo estranhamente confuso.

– Eu não sei bem o que aconteceu. – Disse o professor Nogueira com sangue e poeira por toda a cara. – Acho que foi um aluno do ensino médio, não lembro bem o nome dele, mas sei que todos chamavam ele de im…im… …. eu acho que o nome dele era Jeremias.

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