Negros e Negras em jogos de luta. – Black Nerd #015

Se você procurar Anderson Shon num dicionário encontrará adj.¹ nome dado a pessoas que jogam jogos de luta com total maestria. adj² modéstia pura em games de luta. Minha formação em fliperamas onde bêbados e loucos passavam o dia e minha inserção ao Super Nintendo me fez uma criança viciada em hadouken. Porém, minhas andanças nas questões nerds com recorte racial me levam a uma pergunta… uma pergunta que eu farei a vocês. Digam-me, por favor, dois personagens negros em jogos de luta. Ahhhh, não vale os que lutam Boxe ou atrelam a luta com alguma dança. Vamos lá… depois me digam também quanto tempo vocês levaram para achar essa informação na  memória. Ainda não acharam, né? Vamos pro texto.

world map | Jogo Véio
Super Street Fighter II – The New Challengers (1993)

Street Fighter II causou um alvoroço no mundo dos games apresentando uma mecânica que hoje é extremamente clichê e óbvia. Independente da porradaria que esteja na sua tela, um hadouken ou shoryuken sempre se fará presente, pois a partir de Street Fighter II eles viraram movimentos quase que obrigatórios. A saga de Ryu e Ken apresentou um torneio de artes marciais que tinha como objetivo saber quem era o melhor lutador do mundo. Vários países tinham seus representantes; Ryu do Japão, Ken dos EUA, Blanka do Brasil… vários, mas não todos. A África ficou de fora (a Oceania também) e, mais uma vez, quando o assunto é se colocar em pé de igualdade com o resto do mundo, vimos o mundo dos games nos dar mais um exemplo de exclusão. Contudo, os negros são representados, mas naquela caixinha que falei inicialmente; o boxeador e o dançarino.

As décadas de 80 e 90 foram marcadas por um crescimento da popularidade do boxe. Muhammad Ali já havia parado, mas Mike Tyson e Evander Hollyfield eram deuses em cima dos ringues. Balrog é inspirado diretamente em Tyson, tendo sua versão japonesa nomeada como M. Bison (Mike Bison, dedução livre kkkkkk). Outra forte tendência dessas décadas – mais a de oitenta – foi o dancehall jamaicano. A influência da Jamaica na música atraiu bandas como Rolling Stones e The Clash para a terra do Bob Marley só para aprenderem musicalmente através da total imersão. Daí nasce Dee jay, um lutador que é definido pelo estilo de luta “kickboxing/dança”. O estereótipo de jamaicano festivo foi usado para um lutador que queria provar que era o melhor lutador de rua do mundo. Seria como colocar alguém para lutar o “MuayThay/cozinheiro” ou o “Sumô/administrador de empresa”. Tá bom tá bom, a dança pode ajudar na luta e Street Fighter é um jogo de estereótipos, mas o grande problema foi o legado que ele deixou.

Super Street Fighter II - Balrog Vs Dee Jay - YouTube
Super Street Fighter II – Balrog Vs Dee Jay
Em cima: T.J. Combo (Killer Instinct), Christie Monteiro (Tekken) e Heavy D’ (KOF)
Embaixo: Elena (Street Fighter), Eddie (Tekken) e Elena (Street Fighter)

Muito além dos hadoukens e shoryukens, Street Fighter criou um padrão de como retratar negros em jogos de luta. Apesar de atribuírem a Jax, do Mortal Kombat – principal rival da franquia – , as modalidades Muay Thai e Judô, é perceptível que ele é lutador de boxe com estilo porradeiro de rua. Mickey Rodgers, do Art Of Fighting, Dudley do Street Fighter, T. J. Combo do Killer Instinct, Nelson do KOF XIV e Heavy D’, do primeiro King Of Fighters, dividindo o trio com outro lutador negro, o Luke Glauber, que trocava a lógica da dança pela do basquete, mas dessa vez tinha um contexto interessante, são outros negros representando o boxe em jogos de luta. Eddy Gordo e Christie Monteiro do Tekken, Richard Meyer e Bob Wilson do Fatal Fury, Elena do Street Fighter são da modalide “dança, mas luta”. Ainda temos o Sean Matsuda do próprio Street Fighter, que mistura capoeira com o estilo de luta de Ken, Laura, do mesmo jogo, que mescla capoeira com JiuJitsu e o Duck King do Fatal Fury que só dança mesmo. Todos são negros, todos são os únicos negros nos seus respectivos jogos e vivem uma limitação de artes marciais, pois alguém acha que negros só sabem lutar a mesma coisa.

“Que mimimi, Shon, então você queria que colocassem capoeiristas ou boxeadores brancos?” Enzo

Não… ou sim, depende do contexto, esse não é o ponto. A questão é que eu queria ver negros judocas, karatecas, lutando ninjutsu, luta greco-romana, tae kwon dô, dambe, sumô, evala, kung fu… A impressão que eu tenho é que um personagem branco pode lutar o que ele quiser, um negro não. O todo é tão excludente, que o jogo chamado WORLD HEROES divide seus personagens por países, transformando algumas figuras históricas deles em lutadores, mas não há um representante africano. Talvez não exista história na África.

Bandeiras Hattori (KOF) e Khushnood Butt (Garou)

Esse texto exemplifica o que é o racismo estrutural na prática. Você não precisa ser ofensivo ou agressivo com uma pessoa negra pra estar sendo racista. O racismo estrutural constrói uma estrutura – como o nome diz – em que o negro é excluído ou limitado a um determinado ambiente e transforma essa agressão em normalidade. Isso se repete tantas vezes, que quando você o vê fora do lugar que se acostumou, te causa uma estranheza. Talvez isso tenha acontecido comigo quando vi o personagem Khushnood Butt utilizando técnicas de karatê da família Sakazaki, ou Bandeiras Hattori, o Raven e a Master Raven com o seu ninjutsu, mas a culpa não é minha, a culpa é dos criadores de games que me disseram o tempo todo que negros são boxeadores ou dançarinos. E não há nenhum problema em ser boxeador ou dançarino, mas há todo problema em ser boxeador ou dançarino. Imagine quão profundo seria esse debate se nos questionássemos sobre negros e negras que protagonizam jogos de luta? ou melhor… que protagonizam jogos.

O combate a qualquer tipo de racismo é uma grande luta, o maior chefão a ser enfrentado é a desigualdade e eu sei que a maior fraqueza dele é a empatia. Então, quando você ler textos como esse, ouvir discursos como esse, tente perceber que eles não nascem da vontade de problematizar tudo, mas sim da ideia de que hoje temos acesso a informação e uma forma de mudar é questionando um status quo para que não continuemos repetindo padrões excludentes. E se alguém quiser me desafiar pra um 1 x 1 em qualquer jogo de luta antigo, eu aceito. Eu não só vou socar sua cara, como, ao fim, dançarei a dança da vitória. #WakandaForever

Obs.: Deixo aqui um artigo sobre artes marciais na África e um vídeo sobre racismo estrutural. Esses dois materiais podem te fazer entender mais a profundidade desse texto.

África – A Origem das Artes Marciais

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