CANTANDO O CONTO #015 – PROTETOR DE TELA

Texto, Locução e Edição de Anderson Shon

Às vezes os dias passam tão rápido, que o cansaço vem como aviso da chegada da noite. Não era o caso, ainda havia luz lá fora e frio aqui dentro. Resolvi esticar o corpo, mas sem sair da frente do computador, podia ser que algum cliente quisesse reclamar da fonte utilizada no topo do cartaz, dizendo algo como: “eu não imaginei bem desse jeito.” A tela estava no Telegram Web e a minha vontade era que aparecesse logo um “ok” pra eu poder fechar o notebook com força – como fazem nos filmes – e deitar no chão, até perceber que outras afazeres estavam me esperando.

Um minuto… dois minutos… cinco minutos… dez minutos… trinta minutos de inatividade e meu notebook me mostrou algo que eu não via há muito tempo; um protetor de tela. Se você nasceu nos anos 2000, talvez nem saiba o que é isso, mas minhas costas doloridas e meu gosto por bonecos me introduzem como um balzaquiano e protetores de tela eram as maiores distrações que eu tinha quando ia no trabalho do meu pai. Talvez nunca tivesse visto ela no meu notebook por nunca ter ficado mais de trinta minutos sem mexer em algo nele. Cheguei perto e vi a imagem de um enorme campo verde conversando com uma série de nuvens se mexendo num balé celestial.

“Como nunca tinha visto isso antes?” Me aproximei mais, vi que elas tinham formas diversas, e, como se eu estivesse olhando pela janela – ahhhhh, windows, é isso! -, fui acompanhando a sua mutação. A primeira que passou tinha formato de saudade, era ondulada como o mar e algo nela me lembrava banhos acompanhados, afeto, vontade de pular o tempo e voltar a ter abraços como rotina. A nuvem seguinte era um violão gigante, as cordas podiam ser identificadas por nuvenzinhas mais finas que estavam em perspectiva e quando o vento batia, o som alto de quatro ou cinco violões entravam mudos na minha alma, me enchendo de calma através de músicas e versos. Tinha outra nuvem, essa com formato de bicicleta, a brisa estava pedalando com ela e seguindo mais rápido que as outras, como se estivesse com pressa para encontrar algo que está distante, tentando tocar o coração, mas sendo sábia ao ouvir o tempo. Essa nuvem parou de pedalar por um momento, acho até que vi uma gota branca saudosa cair do seu olhar.

Os formatos eram os mais variados possíveis. Algumas pareciam com a sua voz, outras com o seu olho fechadinho quando dá risada, tinha uma que lembrava suas bochechas, ou sua expressão de brava com alguma piada, eram muitos formatos e todos eles formavam a saudade. Mas a última nuvem que seguia o ciclo era a mais bonita, tinha o formato do seu sorriso. Ficou parada ali no canto da tela, quando o som de notificação do Telegram Web fez a imagem se desmanchar e pude ver um “ok” do cliente. Fechei o notebook – sem força – e fui até a janela. Esperei que as nuvens dialogassem comigo novamente, mas elas já tinham falado tudo que queriam, o resto da mensagem estava em mim. Fechei os olhos e pude ouvir uma invasão de canções sentarem no meu sofá, nas mesas, cadeiras, poltronas, deitarem no chão. Elas tinham um refrão otimista e acalentador. Chorei, chorei e foi bom chorar, por que não era um choro de quem não aguentava mais estar longe, era o choro de quem esperava com um sorriso no rosto, ansiando a hora de voltar.

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