CANTANDO O CONTO #017 – O amigo Esperança

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Talvez esse seja o conto mais difícil que já tenha tentado escrever na vida – essa deve ser a décima tentativa de início e foi a primeira que passou da primeira linha -, por isso te peço licença para quebrar a quarta parede e não ser somente o narrador ou autor dessa história, dessa vez eu quero poder ser, mas sem que isso deixe de ser um conto.

– E por que é tão difícil? – O personagem havia acabado de ser criado e olhava para o próprio corpo tentando se reconhecer. – Por que escrever esse conto é tão difícil assim?

Esqueci que não deveria ter criado você sendo questionador, mas é que essa é uma das características de quase todos os meus amigos e amigas, você é o personagem que fiz para homenageá-los.

– É também esse o motivo de eu estar usando óculos? – Ele tirava os óculos do rosto e olhava com estranheza, pareceu ter gostado das cores e da armação, mas preferia estar sem eles.

Sim, parece que um pré-requisito de ter a minha amizade é conseguir enxergar bem ela, mas eu preciso que você fique quieto, ainda tenho todo um enredo, cenário, plots, tenho muita coisa ainda pra pensar antes de você ganhar vida.

– Shon, eu já estou vivo. – Ele andava de um lado pro outro num enorme vazio. – Se você não me quisesse falando agora, deveria ter me criado por último.

É… não deveria ter te feito questionador, você está certo, da próxima vez vou seguir seu conselho. Acho que te fiz logo pra ter uma companhia, sabe? Tenho me sentido sozinho e o dia de ontem, dia do amigo, me faz relembrar tantas coisas. É, então vai conversando, pode tirar suas dúvidas, eu estou aqui pra isso.

– Por que essas orelhas? Esse cabelo? E esse tamanho de botão? Meu nariz é vermelho mesmo? Pernas grossas… hum… isso eu curti, obrigado, mas meu pé é muito grande, onde vou achar sapatos? Pareço um Frankenstein moderno, você só tem amigo estranho?

Na verdade, você é o monstro de Frankenstein, mas admito que exagerei. Foi intencional, se eu tivesse que criar um personagem para cada amizade, isso não seria um conto, seria um romance, uma novela, se fossem adaptar para Netflix ia durar uma eternidade.

– Ahhh, é verdade, e eu estou aqui pra que mesmo? Só pra ser protagonista da próxima história e pronto? – Suas mãos tateavam cada parte ainda não reconhecida do seu corpo.

Na verdade, sim, mas você falando desse jeito me deixou meio mal. Eu acho que você está aí, só por estar mesmo, sabe? Tipo quando um amigo te chama em casa para ficar sentado em algum lugar conversando. Ninguém sabe o assunto, a pauta, o tema ou a necessidade de estar lá, mas estão. Você vai se chatear se eu te usar em algum conto meu?

– Que nada, se escrever te faz bem, continue, só, por favor, me dê um par romântico.

Isso eu não sei se posso fazer, você é inspirado em muita gente comprometida, não quero ter que dar explicações depois. Eu posso te fazer apaixonado por tecnologia, culinária, dança, artes místicas, rock n’ roll, anime, montar armário, medicina, sei lá, um amor não precisa estar relacionado a alguém.

– E só amar algo te satisfaz, Shon?

É… eu não deveria ter te feito tão questionador.

– E um nome – Ele tinha um sorriso vitorioso nos lábios. -, eu preciso de um nome, você não me deu nenhum.

Eu não tenho como fazer isso, seria injustiça com tantas pessoas se eu te colocasse o nome de alguém. Sei lá, posso te colocar um apelido e seu nome ser uma incógnita.

– Se todos os seus amigos vivem em mim, por que não me chamar de Esperança?

Ótimo nome, Esperança, acho que ficou ótimo em você. Agora já podemos começar a nossa história, certo?

– Estou aqui pra isso. – Esperança sorriu e sentou-se esperando todo um cenário aparecer ao seu redor indicando a sua jornada entre as linhas do word e a minha imaginação.

Era dia de chuva, mas nada tirava a beleza daquela pequena cidade. Num canto dela havia Esperança, jovem rapaz que caminhava, sorria e acenava; tinha essa mania de ser amável, aprendera a ser daquele jeito com algumas amizades…

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