As adaptações de livros com autores e autoras negras para o cinema – Black Nerd #018

Vingadores: Ultimato - Ingresso.com
Vingadores – Ultimato: filme com maior bilheteria da história do cinema é uma adaptação de personagens do universo dos quadrinhos.

Dia 25 de Julho é o dia do escritor, então, muito obrigado. Passado esse parabéns imaginado, podemos entender como essa data é importante pra mim – um escritor – e como ela não poderia passar em branco aqui no Black Nerd. Livros influenciam até quem “não gosta de ler” – tenho uma teoria que afirma que todos gostam de ler, explico por inbox pra quem me perguntar -, afinal, obras audiovisuais aos montes já nasceram de obras literárias. Das 10 maiores bilheterias do cinema, quatro são oriundas de livros ou quadrinhos. Você aí deve gostar de alguma adaptação de livros e nem saiba. Por isso vim analisar quais são as obras que serão – ou seriam – adaptadas pro cinema em 2020, pois há uma predominância de livros escritos por brancas, reforçando os conceitos de racismo estrutural e restringindo os negros e negras de outro importante espaço da cultura pop.
O calendário de filmes de 2020 foi alterado por conta da pandemia do corona vírus, no entanto seu planejamento já trazia uma série de adaptações que iriam virar filmes e séries. Algumas delas já estrearam, outras foram adiadas e outras ainda estrearão, tudo é muito incerto. Baseado no planejamento feito antes da pandemia – espero não ter deixado nenhuma de fora -, cheguei a seguinte lista:

  • Adoráveis Mulheres – Louisa May Acott – Autora branca
  • Viúva Negra – Stan Lee – Autor Branco
  • The Outsider – Stephen King – Autor branco
  • Por lugares incríveis – Jennifer Niven – Autora Branca
  • Duna – Frank Herbert – Autor Branco
  • Para todos os garotos que já amei (P.S. Ainda amo você) – Jenny Han – Autora branca
  • Convenção das Bruxas – Roald Dahl – Autor branco
  • O Homem Invisível – H.G. Wells – Autor branco
  • Mulher Maravilha – William Moulton Marston – Autor branco
  • Por Lugares Incríveis – Jennifer Niven – Autora branca
  • A Extraordinária garota chamada estrela – Jerry Spineli – Autor branco
  • Emma – Jane Austen – Autora branca
  • A Mulher da Janela – A.J.Finn – Autor Branco
  • Pequenos Incêndios por Toda Parte – Celeste Ng – Autora Branca
  • Jardim Secreto – Frances Hodgson Burnett – Autora branca
  • Maria e João, conto de bruxas – Irmãos Grimm – Autores brancos
  • Os órfãos (A Volta do Parafuso) – Henry James – Autor branco
  • Expresso do Amanhã (O perfura-neve) – Jean-Marc Rochetee, Jacques Lob e Benjamin Legrand – Autor branco
  • The Old Guard – Greg Rucka e Leandro Fernandéz – Autores brancos
  • Morte no Nilo – Agatha Christie – Autora branca
  • 365 DNI – Blanka Linpinska – Autora branca
  • Cursed, A Lenda do Lago – Frank Miller – Autor branco
  • Artemis Fowl – Eoin Colfer – Autor Branco
  • BloodShot – Kevin VanHook e Yvel Guichet – Autor branco e ilustrador negro.
  • A Vida e a História de Madam C. J. Walker – A’Lelia Bundles – Autora Negra
  • Luta Por Justiça (Compaixão) – Bryan Stevenson – Autor Negro

Sim, eu posso ter esquecido de algum exemplo, mas há muita especulação e eu quis me fixar nos que tivessem pelo menos uma data de estreia pré-marcada. E se dentro desse esquecimento houver alguma adaptação escrita por negros e negras, não vai mudar em nada a dedução que chegaremos (a menos que eu tenha esquecido vinte adaptações de negros e negras, mas acho pouco provável).

Essa lista já nos mostra o quanto histórias com ponto de vista de negras e negros são excluídas de um circuito muito influente na cultura pop. Quando um livro é adaptado para o cinema, o próprio livro, normalmente, tem um acréscimo significativo nas vendas, afinal está sendo alvo de uma publicidade natural e constante, já que passa a fazer parte de rodas de conversas, canais de youtube, entrevistas e etc. O André Vianco, por exemplo, autor nacional de livros de Vampiro – Os Sete, Vampiro-Rei, Bento – falou que o sucesso cinematográfico da quadrilogia Crepúsculo fez com que seus livros vendessem muito.

5 escritoras negras para ler para ontem | Anatomia Pop
O que não falta são autores e autoras negras com obras incríveis que dariam ótimas adaptações audiovisuais. Da esquerda pra direita: Toni Morrison, Chimamanda Ngozi Adichie, Angela Davis, Conceição Evaristo e Nicola Yoon.

Quando livros ganham filmes, eles vão para as principais prateleiras da livraria. Aquelas que tem maior visibilidade, normalmente ficam próximas às entradas. Esses livros, por sua vez, vendem bastante, justificando a continuidade lá. O que faz também com que pessoas se sintam mais interessadas em assistir o filme, que inicialmente serviu de publicidade pro livro (coloquei Dark no chinelo com essa explicação). Resumindo, a adaptação pro cinema impulsiona a venda do livro, o aumento das vendas do livro faz com que mais pessoas assistam o filme. Simples.

Mulheres que escrevem | Octavia Butler • Mundo Hype
Octavia Butler foi best seller no gênero Ficção Científica.

Se todos os filmes listados anteriormente culminarem no aumento de venda, público e mídia para seus livros, teremos o público cinematográfico/literário sendo envolto a uma predominância de assuntos oriundos de escritores e escritoras brancas, contado histórias com ponto de vista de um branco, com a vivência, dores, amores e desafios através do entendimento branco. Acreditar na falácia da democracia racial ou do “todas as vidas importam” não faz com que pontos de vistas sejam diferentes e contar somente uma história exclui totalmente a possibilidade que outras pessoas conheçam outras histórias. 24 adaptações com autores e autoras brancas e 3 com autores e autores negras, parece justo? Parece justo que um livro de contos do Stephen King renda mil filmes e a Octavia Butler não tenha sua rica obra de ficção científica adaptada pro cinema? Ahhhh…entendi… a tal meritocracia, Stephen vende mais… mas ele vende mais baseado muito na lógica que eu expliquei no parágrafo anterior. O começo é o fim e o fim é o começo.

Em  foi sancionado pela presidenta Dilma Rousseff, como o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra.

Outro fator importante que pode ser deduzido é a importância do feminismo negro, afinal, dia 25 de julho também é o dia da mulher negra, latino-americana e caribenha. Perceba pela lista que as mulheres brancas já conseguiram um lugar de igualdade quando o assunto é literatura mundial. Anos de briga, transformação dos nomes em siglas pra que ninguém percebesse que era mulheres escrevendo e uma imposição com histórias que refletissem mas as suas vivências deram bons resultados, mas onde estão as negras em tudo isso? O feminismo negro não cria fendas, ele se faz necessário por perceber que no nosso mundo, a briga contra o preconceito nunca é abrangente, quem sofre só quer parar de sofrer e não resolver o problema como todo.

O dia do escritor deve ser comemorado e celebrado, afinal, a leitura é uma das formas mais agradáveis de absorção de conhecimento e de formação do pensamento crítico. Por isso já deixo aqui um “de nada” – de nada – e convido a uma reflexão simples. Dos últimos cinco filmes que você assistiu que foram adaptações literárias, quantos foram adaptados de livros escritos por negros e negras? Ainda há muito a se mudar, seja nos pontos finais do livros ou sejam nos créditos do cinema. O mundo é bem melhor quando ele é plural. #WakandaForever. Obs.: Luta Por Justiça é incrível, você tem que ver.

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