CANTANDO O CONTO #019 – O Demônio Vascaína

em
Texto, Locução e Edição de Anderson Shon

O baile de sexta servia para lavar a alma. A Santa Miclus era a única boate da região que conseguia sobreviver mesmo depois dos aumentos consecutivos do aluguel. Tanto do espaço quanto da “proteção”. A comunidade reunia o cansaço semanal naquele lugar e o despejava ao som das grandes duplas de funk que haviam nascido ali mesmo, era de morador pra morador. Antônio e Carlos, conhecidos como Tony e Cadinho, estavam voltando pra casa depois de já se sentirem mais do que satisfeitos em terem deixado todos os ingredientes de uma semana estressante de lado. Tony era office boy, havia se envolvido em um acidente e agora torcia para que sua moto não parasse antes de completar o dinheiro da revisão. Cadinho trabalhava no mercadinho do bairro, tinha o sogro como chefe, o que o ajudava a ir em casa e, por vezes, trocar a fralda de seu filho enquanto a mulher respirava um pouco. A vida não era fácil e os dois, apesar de serem filhos da mesma comunidade, só se conheceram no curso para o concurso da PM, sonho que partilhavam e tinham certeza de que iriam realizar. Além do sonho profissional, os dois também tinha a curiosidade aguçada como característica em comum, o que faziam sempre conversar sobre o demônio Vascaína. Havia uma lenda na comunidade: os Vascaínas. Seres que viviam nas sombras e que matavam suas vítimas com longos cortes diagonais que iam do ombro até o quadril. Algumas pessoas juram que já viram suas vítimas totalmente ocas, outras vítimas sequer foram encontradas.

Os dois amigos tinham passos curtos e risadas altas, o caminho até a casa era feito junto com uma multidão pouco preocupada com o sono das pessoas que preferiam recarregar as energias no silêncio de suas casas. Estavam sozinhos, ficaram no baile esperando a bonita dançarina do palco sair do camarim, pois Tony disse que estava apaixonado por ela. A coitada tomou um susto com a abordagem, achou engraçado, mas não iria dar bola para um bêbado que só queria mostrar pro amigo que conseguia sair daquela noite com um beijo na conta. O segurança da casa avisou para que eles tomassem cuidado, os Vascaínas estava solta pela comunidade. Os dois riram, usaram um exemplo que aprenderam no curso e que adoravam reproduzir em seus discursos. “Com certeza, a primeira pessoa que viu um elefante achou que estava diante de um monstro, até entender seu jeito, sua forma, ver que tinham outros, o tempero do medo é a ignorância”. Terminavam sempre com essa frase de impacto. O segurança deu de ombros e os dois seguiram seus destinos.

A risada alta dada após a lembrança do tombo do Dj da noite foi interrompida por um barulho de passos fortes que invadiram a audição do dois. Eles se olharam, tentaram não expor nenhum tipo de preocupação com o olhar, mas já era tarde. Pararam, estavam embaixo do toldo do salão de beleza Fromer, que tinha a cabeleireira mais antiga da região, os dois brincavam que era como ter sua cabeça sendo cuidada por um dinossauro.

– É melhor a gente correr.

– Não, tá louco, os Vascaínas pega sempre quem tá correndo, vamos esperar, pode ser um cachorro.

Aquela era uma boa esperança, se agarrar nela deu até a oportunidade de um sorriso aparecer, mas por pouco tempo, dessa vez eram as luzes que irradiavam de algum canto que o desespero deles não conseguiu acessar. Como se livrar de um monstro que nunca erra? Os passos, as luzes, o barulho do fim vinha se aproximando e os dois jovens não sabiam o que fazer.

– É agora a melhor hora de correr?

– Não, vamos nos esconder ali. – Havia um beco, não era um bom lugar, com certeza teriam que ocupar o mesmo espaço de usuários e aviões, eram pessoas de boa índole, mas eles sabiam o que os Vascaínas não levava isso em consideração. Não correram, mas apertaram os passos para que o monstro não os visse passar.

– Pronto. – Estava muito escuro. – É só se abaixar e esperar… – Os joelhos de Cadinho tocaram um líquido espesso, o que fez com que ele levantasse abruptamente e forçasse os olhos para enxergar o que tinha no chão. Os jovens levaram a mão à boca, vomitar ali só iria deixar aquela cena mais feia. Cinco corpos despedaçados, com o corte diagonal característico dos Vascaínas.

– Nós não podemos ficar aqui. – Tony saiu correndo sem direção.

– Não, Tony, não. – Cadinho não saiu, apesar do cenário, a única chance de sobreviver era ficar. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete estampidos vieram junto com clarões que iluminaram suas vistas, apesar dos olhos trancados. Continuou ali na sua reza muda e no seu conceito vago. “São só elefantes, são só elefantes.” De repente, viu uma respiração se aproximar, continuou de olhos fechados, não queria saber como era o monstro, isso poderia enlouquecê-lo para sempre. Sentiu um peso nos ombros e ajoelhou, foi o último movimento voluntário que fez. Os outros foram os movimentos de queda que seus órgãos faziam como consequência da fenda aberta entre o seu ombro e seus quadris.

1 comentário Adicione o seu

  1. subcirce disse:

    Sensacional como sempre. Parabéns e obrigada por compartilhar cultura.
    Abraço
    Circe

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