Território Lovecraft – Black Nerd #021

Você já ouviu falar das cartas de Monteiro Lobato? Esse documento histórico mostra o autor assumindo uma faceta racista e destilando o ódio já presenciado em muitos trechos do Sítio do Pica-Pau Amarelo, sua obra mais famosa.

“Na casa ainda existem duas pessoas – Tia Nastácia, negra de estimação que carregou Lúcia pequena, e Emília, uma boneca de pano bastante desajeitada de corpo”

“Dona Carochinha botou-lhe a língua – uma língua muito magra e seca – e retirou-se furiosa da vida, a resmungar que nem uma negra beiçuda”

Território Lovecraft - Matt Ruff - Intrínseca

Encontrar expressões racistas nas obras de Monteiro Lobato é como achar uma palha num palheiro. O problema é que pouco se foi feito contra a forte influência do Sítio na literatura infantil nacional e o debate sobre censurar ou não nunca chegou a lugar algum. Imagine se alguém fizesse uma adaptação do Sítio, em que a Tia Nastácia vira dona do local e transforma ele em um orfanato para crianças negras sem família? Uma boa forma de combater o racismo literário é se apropriar dele e usá-lo contra ele mesmo. É exatamente isso a motivação de Território Lovecraft, o livro escrito pelo Matt Ruff, recém adaptado para série na HBO, deve estar fazendo o autor se revirar no inferno.

“Era, contudo, extremamente feio apesar de sua aparência brilhantes; havia algo quase de caprino ou animalesco em seus lábios grossos, na pele amarelada e de poros grandes, nos cabelos crespos e grossos e nas orelhas estranhamente alongadas.” O Horror de Dunwich

Lovecraft se caracterizou por um horror cósmico que prioriza muito mais a relação dos seres humanos diante desses horrores do que a própria figura misteriosa em si. Seu personagem mais famoso, o inominável Cthullu, não é visto atacando as pessoas em jump scare comuns em narrativas. Por vezes, o foco é o culto a ele e em como as pessoas enlouquecem quando se dão conta da existência de algo maior que não possa ser domado. Esse aspecto do terror é bem interessante, mas perde a beleza quando se é percebido que os seres humanos que cultuam essas criaturas míticas são sempre pessoas pobres e negras, quase como um paralelo com religiões de matrizes africanas. Lovecraft nos faz entender que negros e pobres não tem valor a vida miserável que levam – para suas narrativas essa parcela da população é sempre miserável – e os coloca quase como cobaias desses rituais, descrevendo suas características físicas com um desprezo repulsivo.

“Todos os prisioneiros revelaram-se homens vis, mestiços e mentalmente perturbados. Muitos eram marinheiros e alguns negros e mulatos davam a cor do Vodu ao culto heterogêneo.” O Chamado de Cthullu

Território Lovecraft estreou na HBO e trouxe consigo o debate sobre a arte como resultado do artista. Há como desassociar o autor da obra? Mas essa discussão é complexa demais e eu tô aqui só pra te convencer a assistir essa brilhante obra. A série traz toda a mitologia do Lovecraft ambientada nos Estados Unidos da década de cinquenta, tempos sombrios, onde era comum negros serem espancados até a morte – resquício da era dos linchamentos -, tendo como ponto mais absurdo as “sundown town” (cidades do pôr-do-sol ou cidades cinzentas), municípios ou bairros dominados por brancos que praticavam a segregação de forma extremamente violenta, existindo até relatos que após às 18:00h era permitido matar negros. Havia leis que legalizavam a segregação, as leis Jim Crow, o que fazia com que negros tivessem que tomar cuidados para não “infligirem as leis” e serem punidos por conta disso.

Cena inicial da série Território Lovecraft

A cena inicial já mostra um jogador de beisebol destroçando Cthullu, monstro mais famoso de Lovecraft, ao meio, mas vendo ele se refazer e atacar novamente. Assim é o racismo, difícil de derrotar, você bate nele e ele acha uma forma de se reerguer. Somos apresentados ao nosso protagonista, Tic, jovem negro que estava tendo o sonho relatado anteriormente. Ele e uma senhora estão no fundo de um ônibus de viagem e logo percebemos que aqueles eram os lugares reservados para os negros. O ônibus quebra e todos ficam esperando uma caminhonete que pegaria os poucos passageiros que ainda estavam ali a espera. Tic e a senhora negra são deixados para trás e precisam fazer o resto da viagem andando. No caminho ele conta para a senhora que estava lendo John Carter, a história de um ser humano que cai numa terra extra-terrestre e, sendo o único humano ali, precisa usar da sua força e inteligência para derrotar todos que querem destruí-lo. Paralelo interessante, né?

Não quero contar o episódio todo, então vou pular para a parte que mais me impressionou. Tic, Leti e Tio George entram num restaurante que parecia fazer parte do Green Book – lista de estabelecimentos dos E.U.A. onde negros poderiam usar seus serviços sem ter problemas. Um clima tenso se instaura e logo eles percebem que o aquele estabelecimento não é seguro. Uma perseguição começa, um carro com homens brancos começa a atirar na direção do carro dos protagonistas. Leti mostra toda sua habilidade no volante e ali é apresentado um outro problema social da época: o machismo. Tio George não consegue confiar na mulher ao volante e ela precisa provar que pode tirá-los daquela situação. Uma outra cena deixa claro também como o preconceito tem várias camadas e que sofrer ele não é o suficiente para não reproduzi-lo.

“A população é um emaranhado e um enigma desesperador; sírios, espanhóis, italianos e negros chocam-se uns contra os outros, e fragmentos de cinturões escandinavos e norte-americanos podem ser encontrados não muito longe dali. Trata-se de uma babel de sons e imundície, que lança estranhos gritos para responder ao bater das ondas oleosas nos píeres imundos e às ladainhas monstruosas dos apitos do porto. Aqui, muito tempo atrás, havia um quadro mais aprazível, com marinheiros de olhos claros nas ruas mais abaixo e lares de bom gosto e prósperos onde as casas maiores enfileiravam-se na colina.” O Horror em Red Hook

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Tio George, Leti e Tic.

O clímax do episódio mostra o grupo sendo atacado por um monstro com olhos por toda a pele. Eles estavam no meio da floresta, pois foram emboscados pela polícia local, logo após terem fugido do xerife que tentou “seguir a lei”, indicando que se eles são saíssem da cidade antes do pôr-do-sol, ele seria obrigado a tomar precauções. O xerife persegue-os até eles conseguirem sair, mas acabam sendo pegos por uma patrulha policial. O ataque do monstro é o que menos da medo na série. Não pela construção da cena, mas sim pelos horrores reais demonstrados durante o episódio. Fica nítido que os monstros são os homens brancos e que, terror de verdade, é ser negro no sul dos Estados Unidos. A série argumenta, talvez sem querer querendo,  a falácia da afirmação que diz que “não existe raça preta ou raça branca, existe raça humana”. Linda frase, né? Porém, coloque brancos no papel dos protagonistas e você perceberá que o número de monstros que eles terão que enfrentar diminui. E isso não é por que eles se esforçaram mais, ou por que não aceitaram as cotas, é por que racismo existiu, existe  existirá, principalmente se nada for feito.

Shon, você tá se baseando em uma obra de ficção pra argumentar a realidade? Lovecraft, Monteiro Lobato e seus escritos racistas foram reais… Cidades do Pôr-do-Sol foram reais… Leis Jim Crow foram reais… A era dos linhcamentos foi real… o Green Book foi real… Policiais perseguindo negros é real… É… acho que a série é muito mais real do que possamos imaginar. E esse só foi o primeiro episódio, tem muito mais pela frente e espero que eu tenha conseguido te convencer a acompanhar essa obra-prima. Ei, Lovecraft! Vai tomar no Cthullu! #WakandaForever

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