CONTOS CRÔNICOS – Como ou Quando? A saga de Medime, a interventora.

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E se você pudesse saber como ou quando irá morrer. Qual seria a sua escolha?

David levantou cedo, beijou sua mulher no rosto com suavidade para não acordá-la e foi tomar um banho rápido. Resolveu que compraria algo na padaria ao lado do trabalho, era sábado, dia em que o doceiro tira folga, dando lugar as mãos mais habilidosas de seu substituto. Comprou um doce redondo com recheio e cobertura de chocolate, um suco de laranja sem açúcar e um misto quente que já deveria ter o seu nome, pois ele era o único cliente que pedia para que colocassem uma rodela de tomate dentro.

Entrou no grande galpão e viu aquele lugar reverberando o som dos seus passos. Se permitiu quebrar a própria regra e não usar a máscara de proteção, mesmo com avisos espalhados por todo lugar. Só percebeu a contradição quando postou uma foto nas redes sociais com alguma frase que mostrava a relação entre sucesso e esforço. Algumas pessoas ignoraram a frase e fizeram da imagem um jogo de “7 erros”. Aquele império havia sido construído do zero, seus esforços, suas finanças, foi uma vida inteira pensando no dia que poderia entrar na sala do chefe sem precisar bater na porta antes.

Estava concentrado fazendo alguns cálculos quando percebeu um brilho estranho vindo de uma das telas do monitor. Só havia ligado as câmeras de segurança por precaução, não achou que em pleno sábado alguém poderia tentar roubá-lo. Procurou a arma que deixara guardada na gaveta, verificou se ela estava carregada – o que é um erro, ele sabia, mas ainda assim o cometia – e correu em direção ao refeitório. A imagem da câmera mostrava alguém que não era tão ameaçador, assim ele pensava, por isso ainda deu tempo de usar a mão livre para coçar a espessa barba antes de abrir a porta com violência.

– Eu não sei quem é você, mas quero que vá embora agora! – David entrou na sala apontando a arma para uma mulher baixa de volumosos cabelos crespos. – Isso é uma propriedade privada.

– David, né? – Ela tirou algo do bolso que lembrava uma versão diminuta de um smartphone. – Essa não é a melhor forma de receber visitas, principalmente quem veio de tão longe. – Se sentou em um dos enormes bancos que perfilavam semanalmente empregados esfomeados e ansiosos para saber o cardápio do dia.

– Quem é você? – Aquela arma criava uma desconexão enorme com o cenário posto. Ele não se sentia ameaçado, ela não estava o ameaçando. – E por que você está sem máscara? Só eu posso ficar sem máscara.

– Eu sei, a vida é sua, você tem estragado ela de forma bem peculiar mesmo. – Em um movimento com os dedos ela tirou a arma do rapaz e a arremessou longe. – Eu não sou daqui, esse vírus não quer conta comigo, mas, se eu fosse você, estaria mais alerta, deixaria de ir pra tantas festas ou de encontrar amigos que tem se cuidado muito pouco.

– O quê? – Ele estava esquematizando uma forma de correr e pegar a arma de volta, por isso ouviu pouco do que ela disse.

– Sim, sua vida chegou no nível que pede intervenção. – Ela se levantou e andou na direção do rapaz. – Nem me apresentei, né? Sou Medime, a interventora.

– Fique onde você está! – Ele procurou o celular no bolso. – Vou chamar a polícia agora mesmo!

– Talvez. – Ela sorriu. – Mas você iria precisar disso, né? – O celular dele estava em cima da mesa. – Eu não vou tomar muito o seu tempo, David, senta aí, por favor.

– Não me dê ordens dentro da minha empresa.

– Sobre a sua empresa, acho que é a única coisa que falam bem de você lá em cima, mas a forma de tratar seus funcionários pode melhorar muito, cadê aquele curso de gestão de pessoas que você estava planejando fazer?

– Lá em cima… você pode me dizer logo o que você quer comigo?

– Não só posso, devo. – Um crachá apareceu em seu pescoço. Cada movimento irreal deixava David mais intrigado. – Você chegou num estágio crítico de suas atitude e, para conseguir mudá-las, o céu te trouxe uma oportunidade rara. – Ela voltou a acessar o celularzinho. – Você pode escolher entre saber quando irá morrer ou como irá morrer, fique a vontade para escolher.

Se o silêncio tivesse forma, ele seria um gigante correndo em volta de prédios empresariais. Medime cruzou as pernas e ensaiou um batuque sem som na mesa. David procurava palavras, mas o que queria mesmo era digerir o que havia acabado de escutar.

– Eu… escolher… eu tenho que escolher… isso é um sonho?

– Essa é uma reação bem clichê. – Ela se levantou. – Sonegação de impostos, adultério, assédio moral, atitudes inconsequentes, principalmente quando o álcool se faz presente, distúrbio da ordem, atentado ao pudor – David arqueou as sobrancelhas. -,  isso foi quando você urinou na rua na frente de uma idosa, falsas promessas, olha que eu nem tô falando das vezes que você diz pra sua mulher que só quer filho no próximo ano, afinal, ela tem tomado anticoncepcional para não engravidar de você.

– O quê? Ela está me enganando?!

– Do mesmo jeito que você engana ela, a diferença é que ela tem poder sobre o próprio corpo e você é só mais um cara se achando no poder.

– Como é que você sabe de todas essas coisas?

– Essa é outra pergunta clichê, mas que me deixa bem feliz. – A essa altura do campeonato, David já estava sentado sem nem perceber e Medime sentou-se ao lado dele. – As pessoas não tem coragem de negar todos os erros juntos, ela negam um de cada vez, isso não é o máximo? Tenho certeza que você encontra dentro de si um bom motivo para cometer todos eles, mas explicá-los juntos dá trabalho, né?

– Hããã???

– É… nós não temos todo o tempo do mundo. – Ela puxou um contrato e colocou na sua frente. – Como ou quando, é só pegar essa caneta e marcar uma das duas opções, é simples.

– Digamos que isso seja verdade, o que vou ganhar sabendo sobre um ou sobre outro?

– Consciência, algo que tem te faltado, meu caro.

– Consciência? – Ele pegou a caneta e escreveu um número bem alto no papel. – Esse é o preço que eu paguei para ter uma consciência limpa – Ele escreveu outra sequência de números maior ainda. – e isso foi o que recebi, me parece que você não sabe o que está falando.

– Então somos dois. – Ela apontou pro papel. – É só escolher uma das opções e eu sumo, o resto é com você.

– Eu construí tudo na minha vida com muita estratégia, garota, se eu souber quando vou morrer, a única coisa que farei é viver pros outros, já se souber como, tenho a chance de perceber que posso driblar a morte, até a velhice não mais me deixar correr, é assim que funciona?

– A vida não é uma engrenagem com manual, ela funciona como você quiser que ela funcione.

– Então, que seja. – Ele marcou na opção como. Os dizeres que estavam no papel, ignorados pelo “estratégico” sumiram dando espaço para a frase: “você morrerá em um acidente de trânsito”. David sorriu, era bem verdade que havia acabado de trocar de carro, mas não tinha problema com isso, poderia presentear a sua esposa com ele, se livrar do possível causador da sua morte e ainda sair bem na fita.

Assim o fez, todos estranharam quando diminuiu parte da empresa para construir uma casa e se mudar para lá. Percebeu que sua qualidade de vida mudou só de não precisar pegar o trânsito matinal. Suas saídas de final de semana também diminuíram, pois tinha que ir e voltar andando, obrigando seus amigos a escolher bares mais próximos. As mulheres com quem se encontrava não aceitavam entrar num motel andando e David não queria se arriscar entrar num carro, nem que fosse em um distância de poucos metros. Anos se passaram e aquela visita esquisita pareceu um delírio de alguém que estava trabalhando demais. Era final de ano, a tradicional saída dos sócios acontecia no bar do antigo Renato Caixa Prego.

– Galera! Galera! O David tá passando mal, me ajudem aqui. – Foi uma noite de excessos, o medo da morte é um freio natural para a vida, viver sem ele pode ser perigoso.

– Ele bebeu demais, precisa tomar glicose. – Os amigos apoiaram ele nos ombros. – Vamos colocar ele no carro, a gente precisa levar ele no posto. – A pouca consciência sóbria de David se espantou com o que ouviu. O problema é que a boca não respondia ao estímulos do ouvido e ele nada pode fazer. Se viu deitado no banco de trás de um Tiguan, olhando somente a lua através o teto solar. O barulho inicial do motor foi o último som audível escutado por David. Enfim percebeu, não há estratégia para a morte.

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