Crônicas CRÔNICAS #01 – O Dia Em Que Conheci o Racismo

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Eu não me lembro qual era o ano, mas adoro contos e crônicas que começam com a exatidão da data. “Dezenove de março de 1987, foi nesse dia…”.  Ahhh, gosto também da indicação das horas e essa sei com exatidão, pois era a hora da saída da escola. Quando o sinal tocava, às 12:30, os alunos saiam como guepardos avistando uma presa indefesa. 300 minutos de aula, divididas em um respiro de 1800 segundos não parecia o tipo de formato animador para alguém acordar às 5:30 (sim, eu acordava às 5:30 com o dia ainda escuro, eram tempos de horário de verão) com ânimo de ir para qualquer lugar. Logo, voltar para casa parecia o clímax do dia, principalmente quando o professor de educação física faltava, deixando a aula vaga para mais uma lista de matemática aparecer em nossas carteiras.

Apesar dos pesares, eu gostava muito da escola, tinha todos os meus amigos lá e sempre elegia uma menina pra me apaixonar por ano. Lá descobri o dissabor do amor (usei essa frase só para dar um tom poético ao texto) e tive as minhas primeiras lágrimas passionais rolando pelo meu rosto (essa também). De qualquer forma, voltar para casa era bom, pois eu poderia ver os desenhos vespertinos e almoçar.

No Rio de Janeiro, algumas escolas tem seus próprios ônibus escolares, lá eles chamam de rota, e é assim que irei chamar. A rota mantinha uma estratégia de pegar os alunos mais longe primeiro e deixá-los em casa por último. Por isso acordava tão cedo, pois era o primeiro a ser pego e, por isso chegava em casa com tanta fome, pois era o último. A rota 23 era dirigida por um senhor careca e baixo, acho que o nome dele era Antônio, mas, se não fosse, combinaria muito bem.

Estava sentado num dos acentos do fundo, esperando ela encher para que Antônio pudesse dar a partida e nos levar pra casa. De repente, o zelador da escola entrou na rota procurando por Anderson. Eu era o único Anderson dali, se não me engano, o outro Anderson da escola – sim, só tinham dois – ia para casa andando, pois morava bem próximo. Talvez seja relevante saber que eu era bolsista, pois meu pai era militar e, nessa época, militares ganhavam bolsas de estudo para os seus filhos e não ficavam por aí dizendo que os prazos de validade de testes para a COVID podem ser renovados.

O zelador apontou pra mim e me perguntou por que eu havia esvaziado o pneu da rota 16. O fato de ser bolsista me deixava com medo de fazer qualquer tipo de contravenção. Argumentei dizendo que não tinha feito nada, afinal, realmente não tinha feito. Não foi o suficiente, a rota já estava quase toda cheia, mas eles tiveram que esperar, pois o zelador fez questão de continuar as acusações e me levar para a SALA DE ADÉLIA. Acredito que a caixa alta tenha levado vocês para a tensão que se instaurava quando percebíamos a possibilidade de pararmos na SALA DE ADÉLIA.

Adélia era uma senhora com problema na coluna e na audição. Na verdade, o da coluna era sério, o da audição era por que ela quase nunca escutava a gente. E assim se deu mais uma vez, enquanto ela me questionava do motivo que, supostamente, me levou a esvaziar um pneu, eu falava, já cansado, que não havia feito nada. Como estávamos em um impasse, ela resolveu chamar a testemunha que tinha me acusado. Um jovenzinho – todos éramos – de óculos entrou na sala com a expressão temerosa (eu falei, era a tal SALA DE ADÉLIA). A diretora perguntou a ele que horas que me viu esvaziando o tal pneu.

– Não foi ele, senhora Adélia, foi o outro Anderson.

Há três tipos de alívios que são insuperáveis: quando você está extremamente apertado, a ponto de pensar na possibilidade de se aliviar um pouco nas calças , e, eis que de repente, aparece um banheiro para te salvar. Quando você tropeça subindo uma escada e percebe que seu rosto ficou a pouco metros de um degrau. E quando você está prestes a entrar numa enrascada e é salvo pelas mãos do destino, nesse caso, pelas mãos da justiça. Voltei pra rota, muitos me perguntaram o que havia acontecido e expliquei que foi só um mal entendido.

Cheguei em casa e minha mãe terminava o almoço. Se bem me lembro, ela estava cortando batatas e cenouras para finalizar uma tradicional salada de maionese que acompanhava as refeições. Eu gostava mais quando tinha maçã, gostava tanto que quando passei a morar só, substituí todos os outros ingredientes por maçã e, por vezes, colocava atum, dependia de como meu mês e meu estômago estavam. Ela me perguntou o porquê do atraso e eu expliquei toda a situação. As mães tem uma habilidade de, por vezes, se irritar com você por algo que não está no seu controle e os movimentos que minha mãe fazia ao ouvir a história estavam me fazendo entender que isso aconteceria mais uma vez. Porém, não. Ela parou de cortar as batatas e cenouras e me disse que precisava ligar para o colégio. Talvez você, jovem, que está lendo esse texto nem imagine uma sociedade em que cada pessoa não possui um celular. Nessa época, nem tínhamos telefone em casa e minha mãe ligou de um orelhão que fazia ligações gratuitas com o máximo de três minutos.

Fiquei em casa pensando em duas coisas: “nossa! como eu tô com fome” e “uma maçã aí iria cair muito bem”. Olhei para a fruteira e só tinha banana e batata, nada que pudesse me ajudar. Fui tomar banho e esperar minha mãe voltar para finalizar o almoço. Ela não parecia mais calma quando passou pela porta. Foi até a cozinha e eu, já de banho tomado, a segui. Ela me falou que Adélia iria me pedir desculpas e que essas desculpas só serviriam se fosse na rota, no local onde eu estava e fui retirado com a força de uma acusação falsa. Não entendi muito bem, mas estava com fome o suficiente para concordar sem perguntar as razões por trás daquilo.

No outro dia, na escola, fui chamado na SALA DE ADÉLIA. Imaginei o que fosse, então fui com menor temor (eu acho). Ela se desculpou, não como minha mãe tinha dito, me disse que foi um engano e culpou o jovenzinho que havia feito a denúncia por não ter sido tão específico. Hoje eu entendo que ela queria que o menino tivesse dito: “Olha, não é o Anderson negro, é o Anderson branco.”, talvez isso faria com que ela não deduzisse o que deduziu. Voltei pra casa e menti pra minha mãe quando ela me perguntou se a diretora tinha ido até a rota me pedir desculpa. Menti para encerrar o assunto, não queria entrar em uma via de colisão com a diretora, eu era bolsista, não podia me dar esse luxo (assim pensava).

Em 2019 (agora eu lembro o ano), ao ler o livro do Lázaro Ramos, Na Minha Pele, mergulhei na minha infância e adolescência e entendi uma série de histórias que pipocavam na minha mente. Enquanto estava lendo, percebi que todo esse episódio foi fruto de um racismo que sempre enxerga os mesmos alvos, a mesma cor, os mesmos traços como malfeitores. Percebi que a maioria dos meus professores eram brancos e que o zelador, a moça da cantina e Antônio eram negros. Percebi por que sempre minhas paixões da escola eram meninas brancas e o motivo delas sempre ficarem com meninos do mesmo perfil. Eu não era daquele perfil, era bolsista da escola mais cara do bairro, meus amigos da época eram (e ainda são, pois ainda tenho contato com eles) todos brancos. Nunca ouvi a palavra racismo na escola, nunca estudei sobre uma África recheada de reinos, diversidades, etnias, multicultural. Lembro dos livros de geografia com meninas e meninos negros desnutridos e as piadas que faziam comigo, pois eu era negro e magro. Hoje eu sei que aquele episódio do pneu da rota foi o primeiro dia em que sofri racismo na pele, quer dizer, talvez já tivesse acontecido antes e eu nem percebi.

1 comentário Adicione o seu

  1. ALBERTO GONZAGA DOS SANTOS disse:

    A cada dia tenho orgulho de ter vcs como meus filhos e a mulher maravilhosa que sempre esteve presente na vida de vcs na minha ausência que É sua mãe. O estudo é a porta de entrada para ir a quaquer lugar de cabeça erguida e vcs souberam aproveitar . Tanto é que só nós dá alegrias tanto vc Anderson como Alberto. Parabéns pelo texto o mundo poderia ser diferente. A luta é grande só estamos começando.

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