CONTOS CRÔNICOS – Júlia e o Trabalho de História

O ano é 2030, Júlia entra no escritório do seu pai com uma missão; conseguir informações o suficiente para o seu trabalho de história.

– Vixe! esse professor de novo passando esses trabalhos, a gente já reclamou com a direção, Jú.

– Mas eu gosto pai, acho melhor do que ficar fazendo essas provas de marcar, não entendo nada. – Ela se sentou no sofá e viu uma boa quantidade de poeira subir.

– Você tá precisando de nota? Já tá perto do final do ano, se não tiver, nem faz. – O pai de Júlia tentava ligar o computador, mas não conseguia.

– Eu ainda preciso de nota nele, matemática, física e nas outras é que eu já estou passada. – A menina falava com um enorme orgulho. – Ahhhh, e em artes também, preciso terminar a minha xilogravura por que ainda preciso de ponto em artes.

– Artes? Ainda dão artes na escola? Me lembre de ano que vem sentar com você para selecionarmos melhor essa grade, tudo bem?

– Tudo. – A menina pareceu meio contrariada. – Mas não é sobre isso, pai, é que o trabalho de história é sobre pandemias que ocorreram no mundo e a minha equipe ficou com a do covid.

Os eventos de 2020 e 2021 ainda eram presentes, mas aos poucos iam se tornando passado. Os livros de história já traziam cada momento do caos que era frequentemente rememorado por aqueles que se viram como pássaros engaiolados por quase dois anos. Júlia, na época, tinha somente três anos, se lembrava só de não poder sair para brincar e depois do período que passou na casa da avó.

– Que bom que eles estão deixando que vocês apresentem isso, assim dá pra saber a verdade por trás do que dizem.

– A mamãe tá muito ocupada lá embaixo, acho que o senhor pode me ajudar.

– Posso sim. – Ele fez um sinal pra ela se aproximar. Júlia puxou uma cadeira ranhenta e se sentou. – Primeira coisa, não foi esse caos todo, depois de um tempo, todo mundo passou a ir pra rua, então esse isolamento social nem existiu, principalmente depois que descobriram que os remédios… – Ele ficou estalando os dedos e olhando pro lado esquerdo do cérebro pra lembrar dos nomes. – …era alguma coisa tipo colorina, clororina, alguma coisa assim, depois você procura… e o outro… sei lá, sei lá, mas eu sei que descobriram esse remédio e tudo voltou ao normal.

– Eu vi no livro umas fotos de um pessoal de máscara…

– Exagero, a gente tinha remédio, não podia se cumprimentar, tinha que ficar distante, pra que a máscara? Muita gente usou, não posso negar, mas eu não vi nenhuma diferença. – Júlia ia anotando as palavras mais importantes do pai. Ela já estava dividindo em tópicos para poder organizar e transformar aquilo nas falas dos integrantes de sua equipe.

– E sobre a vacina? O professor Rodeiro falou que as pessoas passaram a se interessar muito mais por ciência depois da corrida pela vacina?

– Que pessoas? Não mudou nada, minha filha. – Ele se ajeitou na cadeira. – É sobre esse exagero que eu falo, os jornais falavam muito sobre a vacina. – Ele apontou pro papel dela. – Seria bom você deixar uma parte especial só pra falar sobre a mídia, extremamente exagerada, manipuladora, queria causar pânico na população, aqui em casa, na época, eu proibi que sua mãe assistisse televisão, ela queria limpar até os meus óculos quando a gente chegava em casa. – Júlia levantava a cabeça para ouvir, mas a abaixava para escrever as palavras-chave do depoimento do pai.

– Mas sobre esse negócio aí de ciência, de vacina, não deu em nada, eu não tomei a vacina, na verdade, nem lembro muito bem dessa parte, foi mais um alarde geral do que qualquer outra coisa.

– E sobre o presidente, o professor falou que seria legal se todas as equipes falassem um pouco sobre política.

– Acho que essa é a única parte que…

– Filha! – A mãe de Júlia apareceu na porta do escritório. – Você tá fazendo o que aí?

– O papai tá me ajudando com o trabalho de história.

– Julinha. – Ela se aproximou e a abraçou. – Você sente muita falta dele, né? – O abraço ficou mais apertado. – Eu também, minha filha, seu pai faz muita falta.

– Ele estava aqui, mamãe, a gente tava conversando.

– Eu sei, eu sei. – Elas foram saindo do escritório. A mãe aproveitou para fechar a porta e trancá-la. – Seu pai deve ter muita coisa pra dizer mesmo, mas vamos deixá-lo descansar onde ele estiver, tudo bem? Posso te ajudar com o trabalho.

– Pode sim, mãe.

– Então vamos lá pra cozinha, eu vou fazer um lanche pra gente. – Havia uma lágrima escorrendo na bochecha da mãe de Júlia.

– Tudo bem, mãe.

As duas desceram as escadas sem ouvir as palavras cinza que ainda ecoavam naquele quarto vazio, ou as palavras vazias que ecoavam naquele quarto cinza.

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